quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007

Designers, pra que?

A seguir, compartilho com todos mais que um texto, um desabafo de Mauro Pinheiro* sobre como está sendo tratada a nossa categoria.
Boa leitura!


"Recentemente a CEDAE (Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro) resolveu fazer juz ao nome, e puxou a descarga.
Insatisfeitos com a antiga identidade visual da empresa, resolveram mudar. Inovar, entende? Os serviços, para a população, continuam os mesmos...não há qualquer percepção de mudança na qualidade dos serviços (não vou nem entrar no mérito sobre a "qualidade"), mas é preciso mudar, renovar. Estamos na época dos discursos de "branding", não é? Percepção é realidade...discurso, imagem...o que vale é a percepção de qualidade, mais do que a qualidade em si. Ao menos na visão distorcida de muitos empresários, e muitos profissionais de marketing, publicidade, branding etc.
Mas, enfim...o problema não foi exatamente a vontade de "mudar" a identidade visual. O problema não foi descartarem uma identidade que já durava 30 anos (feito memorável para uma identidade visual). O problema foi a abordagem utilizada na "mudança".
Existem profissionais que dedicam parte de sua vida estudando esse assunto...adequação do discurso da empresa à uma representação gráfica, aspectos funcionais dessa representação, como a facilidade de reprodução em diferentes meios (como tampas de bueiro feitas em ferro fundido, por exemplo), possibilidade de redução, desdobramentos possíveis dos elementos da identidade visual, diferentes assinaturas que permitam flexibilidade na utilização da identidade sem perder a unidade do conjunto, etc. Além disso, esses profissionais - também conhecidos como designers, preocupam-se com aspectos não tão óbvios, como os significados atribuídos a essa representação, a pregnância da marca, a síntese e consistência do que seria a tradução gráfica do discurso institucional da empresa. A identidade visual seria, em tese, uma tradução em forma gráfica de aspectos pouco tangíveis que compõem a identidade da empresa.
E o que a CEDAE fez no processo de reformulação de sua identidade visual?
Ignorou o fato de existirem profissionais formados em design há mais de 40 anos nessa cidade (o marco inicial da institucionalização da profissão é a fundação da ESDI, a primeira escola de design da América Latina, na década de 60). Ignorou o fato de existirem mais de 5 escolas de design, só na cidade do Rio de Janeiro. Ignorou o fato de existirem atualmente 6 cursos de mestrado e um curso de doutorado em design no Brasil.
Resolveu fazer um concurso interno, entre os funcionários, para ver quem teria a melhor solução gráfica. Designers? Para que? O "pessoal da informática" resolve isso.
É muita esculhambação. É muita ignorância. É muita incompetência. É muita burrice.
Fosse um projeto de arquitetura, para as fachadas das diversas sedes da empresa, fariam um concurso com os funcionários?
Fosse um projeto para as novas estações de tratamento de esgoto, fariam um concurso com os funcionários?
Como é design, podem fazer com qualquer um, é isso?
O texto no site da CEADE deixa clara a completa falta de noção do que é uma identidade visual:
"Quanto à mudança, o presidente destacou que marca, criada há 30 anos, foi reestruturada fortalecendo o nome da empresa e de seu principal produto, a água. Victer também explicou que a nova logomarca utiliza elementos que lembram as marolas produzidas pela queda de uma gota de água e formam as letras que compõe o nome da empresa. 'Estas pequenas ondas receberam tons de verde, em referência à responsabilidade da empresa com o meio-ambiente, e de azul, que denota a limpidez das águas distribuídas pela companhia. Ou seja, escolhemos uma marca moderna, que identifica a nova gestão da Cedae, pró-ativa e dinâmica', afirmou Victer.
A logomarca vencedora do concurso interno da Cedae, que será adaptada por uma empresa de publicidade, foi criada por três funcionários, José Vieira de Queiroz Júnior, Marcos André dos Santos Fernandes, e Wagner Ribeiro de Magalhães Silva, todos lotados na Cedae Bambina e com função de operadores de computador. 'Acredito que com a decisão de criar um concurso interno a nova logomarca adquire as características que os funcionários sempre esperaram da empresa, modernidade e dinamismo', destacou o presidente."
Os vencedores, claro, foram os operadores de computador. Afinal, todo mundo acha que basta saber operar programas gráficos para fazer design. Seguindo esse raciocínio, meu sobrinho de 9 anos poderia fazer o projeto de reestruturação da identidade visual da Companhia Estadual de Águas e Esgoto do Rio de Janeiro. Sabe mexer com computador, qual o problema?
O resultado fala por si só.


Um absurdo. Conceitualmente frágil, com uma solução gráfica óbvia, com problemas construtivos graves.
Há alguns anos atrás, outra empresa prestadora de serviços públicos do Rio de Janeiro passou por um processo semelhante de reestruturação de sua identidade visual. Mas, ao contrário da CEDAE, a Light, responsável pela distribuição de energia elétrica na cidade, resolveu o problema com a ajuda de designers.
A história da marca da Light é antiga, e pode ser conhecida pelo trabalho realizado por Manoela Amado, quando era aluna do curso de design da Puc-Rio. Para resumir a história: a marca anterior ao último redesenho havia sido criada por Aloísio Magalhães, talvez o designer mais importante da história do design brasileiro.
A marca foi escolhida em um concurso. Mas não com funcionários da empresa, e sim um concurso fechado, com alguns dos designers mais destacados da época: Rubens Martins, Alexandre Wollner, Aloísio Magalhães, Goebel Wayne, Ludovico Martino e Lucio Grinover.


O trabalho vencedor, de Aloísio Magalhães, foi tão forte que garantiu sua permanência mesmo quando a empresa foi comprada por um grupo privado estrangeiro, em 1996, 30 anos depois (notem a semelhança da história da CEDAE). Naquele momento, a empresa sentiu necessidade de marcar essa mudança de paradigma com uma nova identidade visual. Ao contrário da CEDAE, percebendo a importância do fato, resolveram realizar um novo concurso fechado com DESIGNERS!!! O escritório vencedor foi o de Evelyn Grumach, EG Design.
O processo de mudança foi um pouco melhor estruturado. Ao contrário da CEDAE, a Light teve a preocupação de checar o valor de sua marca antiga. Uma pesquisa demonstrou que 94% da população identificava o símbolo criado por Aloísio como sendo a marca da Light. Se inicialmente pretendiam usar a identidade da empresa estrangeira, sepultando completamente a identidade antiga da Light, com o resultado da pesquisa ficou claro que não seria interessante desprezar essa pregnância (Aloísio era realmente um gênio). Partiram para uma reformulação, e não uma nova marca.
O resultado foi o que se segue. Uma revitalização que manteve relação com a marca antiga. O projeto abrangeu inclusive o desdobramento da marca em submarcas, parte do processo de "desverticalização" da empresa.






O contraste parece mostrar bem a importância de um projeto de identidade visual. Só mesmo um IMBECIL deixaria um trabalho dessa magnitude ser resolvido com um concurso interno, entre funcionários sem o menor conhecimento do assunto.
Para completar, a CEDAE pretende deixar o detalhamento e o projeto de implantação da nova marca a cargo de uma empresa de publicidade. No caso da Light, o detalhamento e projeto de implantação ficou a cargo do escritório EG Design, e a manutenção foi responsabilidade do departamento interno de programação visual da própria Light. O processo, previsto inicialmente para durar 3 anos, demorou mais de 8.
A CEDAE, no final das contas, tem a identidade visual que merece. Uma m..., para representar uma empresa que é uma b...

8 de fevereiro de 2007

*Mauro Pinheiro é doutorando em Design pela PUC-Rio (2007), Mestre em Design pela PUC-Rio (2000), Bacharel em Design pela ESDI/UERJ (1995) com habilitação em Programação Visual e Projeto de Produto. Com 10 anos de atuação como designer, atualmente é Professor Assistente do Departamento de Desenho Industrial da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), lecionando disciplinas de Projeto.

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