terça-feira, 30 de agosto de 2011

Diário de viagem | As aventuras de um publicitário disfarçado de turista

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(Continuação do post anterior)
(Suíça) 10/08
7h45 - Não é todo dia que você acorda e diz: Ok, hoje eu vou dar um pulo na Suíça. E de fato, era só um pulo. Só Deus sabe como tudo é perto naquele continente. Eu estava na Itália e queria ir ao país dos chocolates, relógios e canivetes, peguei o carro e em menos de uma hora estava molhando os pés no Lago de Lugano. Aqui no Brasil, mais precisamente em Mato Grosso, se você estiver em Cuiabá e pensar: Ok, hoje eu vou dar um pulo no Chile. Você tem que comprar a passagem aérea para São Paulo, fazer escala em Campo Grande, Brasília, Curitiba, Fortaleza, Macapá, Brasília de novo, Goiânia, Porto Alegre e finalmente São Paulo. Depois pegar uma maldita conexão, e se você tiver sorte, espera por três horas em Cumbica para pegar um voo direto para o Chile. E 39 horas depois, você molha os pés em algum lago do Chile.

8h15 - Minha segunda ida à locadora Hertz foi bem diferente, eu estava vacinado, já era um velho coiote na arte de alugar carros em solo estrangeiro. Me aproximei do balcão e falei com uma italianinha muy simpática e atraente, lábios carnudos, olhos verdes, corpo malhado... (fiquem tranquilos, minha namorada não lê o blog, eu acho). Pedi um carro com GPS, que não fosse movido à diesel, que tivesse uma boa dirigibilidade, que o volante não fosse muito duro e que tivesse um bom espaço interno. Me deram um Lancia. Quem diabo compraria um Lancia?

8h39 - Saimos da garagem guiando aquela barata e mesmo com o navegador eletrônico, me perdi na primeira curva. Comecei a suspeitar que o problema de orientação era comigo. Parei o carro e digitei no GPS a palavra "Lugano". Lembrava do Google Maps, Lugano devia estar a menos de 80 quilômetros de Milão, eu não podia ser tão burro. Depois que configurei e segui as primeiras orientações da voz que se ouvia daquele aparelho, pensei: será que o GPS pensa que eu quero conhecer o zagueiro uruguaio e está me levando para a Turquia?

9h20 - Pouquíssimo tempo depois e eu já avistava a belíssima cidade de Lugano em um horizonte não muito distante, mas antes disso, tinha a fronteira entre Itália e Suíça. Imaginava que teria que rezar uma missa para conseguir mudar de país, que seria interrogado pela Interpol numa salinha escura, que fariam uma análise forense no meu passaporte para constatar a sua autenticidade, que colocariam detectores de mentira para saber se eu achava o Rafael Nadal melhor que Roger Federer. Ao invés disso, passei sem ser notado pelas autoridades suíças. Nem na Ponte da Amizade a coisa é tão liberada assim. Malditos filmes de ficção, pensei.

10h30 - O país é fantástico, mas admito que não tem muito o que fazer numa cidade como Lugano. É legal admirar a perfeição do lugar, e quando eu digo perfeição, quero dizer que não há defeitos, nenhunzinho. A cidade é uma verdadeira maquete, tudo incrivelmente impecável, beira o ridículo. E foi nesse cenário que eu resolvi praticar meu alemão. Cheguei numa lojinha de artesanato e falei com uma senhora de 80 anos: - Guten morgen! E ela respondeu por 3 minutos em um alemão extremamente amistoso. Foi incrível como eu não entendi absolutamente nada. Daí lembrei-me que "Guten morgen" era a única coisa que eu sabia daquele idioma. Me despedi falando "tchau" e fui fazer umas fotos do inspirador lago que adornava a cidade.

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Meus pais no Lago de Lugano, Suíça.

11h12 - Depois que apreciar a beleza de Lugano, a cidade, não o zagueiro, decidimos que era hora de rumar para os famosos Alpes Suíços. Então tentei simplificar e digitei no GPS: Alpes Suíços. "Nenhum destino encontrado", foi a resposta automática enviada pela geringonça. E agora? Como estávamos no extremo oeste do país, sabia que deveria seguir para o leste, e em algum momento cruzaria com os Alpes, afinal de contas, não seria nada difícil encontrar um punhado de montanhas com quase 5 mil metros de altura. Novamente pensei no Google Maps e lembrei que "Tirol" estava no coração dos Alpes Suíços, digitei o novo destino o GPS avisou: "siga 200 quilômetros para o leste." Rá, muleque!

13h40 - A estrada que serpenteia os Alpes deve ter sido feita em algum desses programas avançados de computador, um Mac, talvez. Algo impressionante para um cidadão acostumado com as estradas brasileiras. Túneis com quase 20 quilômetros de extensão, pontes que impressionam pelo desafio à engenharia e o melhor, nenhum buraco. Deveras, um lugar fascinante, esse que o Maluf escolheu. Pela rodovia estreita e recheada de curvas de até 180º ia me deparando com civilizações completamente diferentes de tudo o que eu conhecia até então. De vez em quando era ultrapassado por um comboio de 20 motociclistas da tribo Harley Davidson. Em outros momentos, topava com ciclistas profissionais treinando para alguma coisa. A Volta da França, suspeito.

14h06 - Chegamos ao cume, que no caso, tratava-se de uma taberna de um português boa praça que adorava conversar. Um lugar alto e frio, atingido constantemente pelo ar gélido do cume branco - a tal neve eterna. A temperatura era de 8º, mas havia sol e o céu era incrivelmente azul, C100, M20, Y0, K0, desconfiei. Caramba, como me chamou atenção o contraste do céu com a montanha branca. Por um momento pensei que haviam usado Photoshop naquela paisagem. E depois criticam a Playboy.

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Acima, o tal contraste que eu cito no texto. Abaixo, meus pais e este que vos posta.
Meu pai nunca sente frio, ele costuma dizer que agasalho é para os fracos
.


15h12 - O português, que devia se chamar Joaquim, ou Manuel, não gostava de Euros - era um fato. Quando fui pagar pelo meu espaguete ele disse: - O, pá, não tens aí Francos? E eu respondi: - Francamente? Só tenho Euros. Então ele disse que o Euro está decadente, vai acabar e tudo o que restará no mundo serão os Francos Suíços. Não o levei muito a sério, apenas elogiei o seu estabelecimento e concordei com a teoria. Enquanto saia ainda sobrou tempo para que ele me fizesse a última pergunta: - Tu vens de qual região do Brasil? - Mato Grosso, Cuiabá, Pantanal, Onça, Índio... - foi a resposta que dei enquanto guardava as minhas moedas de Euro.

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A taberna do Seu Manuel. Ou seria Joaquim?

17h45 - Na volta para Milão viemos contemplando toda aquela beleza de região e ouvindo uma rádio francesa. É impossível se cansar da paisagem. Pelo caminho, conclui que estamos muito longe de nos tornarmos um país de primeiro mundo. Me refiro a infraestrutura. Naturalmente, o Brasil é tão belo quanto a Suíça ou qualquer outro país, mas pagamos muito caro por tanta corrupção e descaso. É revoltante conhecer um país sério e perceber que o Brasil não aproveita o potencial que tem. Até que o Charles de Gaulle tinha alguma razão.

(Continua no próximo episódio).

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Diário de viagem | As aventuras de um publicitário disfarçado de turista

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(Roma) 09/08
5h20 - Um coisa que eu ainda não falei aqui. Ainda que a Europa seja considerada um continente de primeiro mundo, dona de incríveis maravilhas naturais e tecnológicas, um exemplo para inúmeras civilizações não muito civilizadas, está longe de ser um mundo perfeito. Muito longe. Os metrôs são sujos, as pessoas - em sua maioria - não tratam bem as outras pessoas e acredite: existe gente de olho na sua carteira por toda a parte. Roma, sendo mais preciso, é uma desgraça.

6h15 - O trem que nos levou à Cidade Eterna tinha dois simpáticos jovens encarregados do serviço de bordo (não sei o termo apropriado para quem desempenha tal função. Um train boy, talvez.) Verdadeiros show-mans, os trains boys. Vieram vendendo todo tipo de porcaria aos viajantes - isso mesmo, vendendo - nos trens daquele país tudo é pago, até o cafezinho. Imagino que se você respirar mais que o necessário tenha que pagar alguma taxa no fim da viagem. A propósito, sempre quis conhecer aqueles vagões-restaurantes, saber como funcionava a coisa toda. Mas depois que paguei 4,8 euros num cappuccino pequeno perdi todo o encanto. Um roubo! Com 4,5 euros, devidamente convertidos, compro quase 10 quilos de arroz Tipo A.

9h45 - Um dia quente em Roma nos aguardava, devia estar fazendo uns 35º aproximadamente - que para um cuiabano, não passa de uma leve brisa de outono. A Estação Roma Termini é um troço horroroso, feio, sujo, barulhento, criança chorando, empurra-empurra. Um inferno! Enquanto tomávamos café numa cafeteira com jeitão de lanchonete, aproveitei a conveniência de uma banca de revistas para comprar um mapa. Siga meu conselho, ter um bom mapa é a melhor coisa que você pode fazer em solo estrangeiro. E de preferência, compre um que já venha com os mapas de metrô, ônibus e trem incluídos.

10h10 - A primeira parada seria o tão esperado Coliseu, que estava a exatos 1.500 metros dali. Sugeri ao grupo irmos a pé e ouvi um canoro "NÃO!" de todos. Fomos de metrô, e ali eu notei a diferença gritante entre Roma e Milão. No metrô de Roma você tem a exata noção de como é ser um boi no meio de uma boiada que é tocada para dentro de uma mangueira. Você não caminha, apenas se deixa ser levado pela correnteza de gente. Vi uma senhora de uns 60 e poucos anos quase ser esmagada contra a entrada do vagão. Observei a triste cena com a minha orelha colada na axila suada de um gordinho. Me responda: existe algo mais nojento do que ter um dos lóbulos em contato com a axila suada de um gordinho? Definitivamente, eu estava em Roma.

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Se você reparar bem, vai ver que tem uma zebra na foto.

10h29 - Chegamos ao Coliseu, nós e metade da Europa, calculo. Santo Deus, como tinha gente naquele lugar. E o mais curioso é que lá ouvia-se de tudo, menos um diálogo em italiano. A imensa fila que circundava a velha arena de combates era uma verdadeira Torre de Babel. Na minha frente tinha uma família sueca, atrás, argentinos, atrás dos argentinos, russos, atrás dos russos, angolanos. Pode?! Angolanos! E tudo o que eu sei da Angola é que lá deve haver muita galinha.

10h50 - O mais curioso dessas imensas filas nos principais pontos turísticos da Europa é que elas andam extremamente rápido, você quase corre para acompanhá-las. Chegando à bilheteria dentro do Coliseu, descobri que não precisaria pegar aquela enorme fila se comprasse um tal de Roma Pass - bilhete 5 Euros mais caro que me daria direito a conhecer todos os pontos turísticos da cidade. Dane-se o Roma Pass!

11h10 - O Coliseu, ou, Anfiteatro Flaviano, não tem essa fama toda à toa. É uma estrutura impressionante, mais pela história do que pela beleza. Ainda que seus 48 metros de altura o obrigue a contemplá-lo por vários minutos ininterruptos. Sempre me interessei muito por aquele lugar, e é inenarrável a sensação de visitá-lo depois de tantos anos imaginando como seriam seus detalhes. Fascinante pensar que aquele amontoado de pedra, construído no ano 68 d.C foi o grande símbolo do Império Romano - simplesmente o maior império que já existiu. Por mim, ficaria ali o dia inteiro, mas tínhamos muito mais lugares para conhecer, lugares igualmente fascinantes.

13h - Pertinho dali estava o Fórum Romano e Palatino, locais que hoje são grandes museus ao ar livre. Todo o trajeto é feito a pé, e por onde quer que você caminhe, encontrará gente do mundo inteiro, até angolanos. Visitamos a Coluna de Trajano e, acidentalmente, o Monumento Nacional a Vítor Emanuel II - obviamente, é um monumento em honra a Vítor Emanuel II da Itália, unificador e primeiro rei da Itália unificada, em Roma. Impressionante o que se faziam antigamente com um punhado de pedras e areia.

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Vocês sabiam que os esquimós lavam o rosto com a própria urina?

14h - O próximo destino era a Cidade do Vaticano, mais precisamente a Basílica de São Pedro. Mas antes de visitar a maior igreja do Cristianismo e um dos locais cristãos mais visitados em todo o mundo, precisávamos comer. Fiquei surpreso quando me aproximei de uma barraquinha de cachorro-quente e um sul-africano disse com imenso sorriso na cara: - Fala, brasileiro! Procurei um espelho pra ver se tinha alguma bandeira do Brasil na minha testa. Fiquei encabulado, como ele sabia? Logo eu, com esse jeitão de nerd canadense. Então eu perguntei: - Como você sabia que eu sou brasileiro? E ele não parou mais de rir, gargalhava repetindo a minha pergunta a todos a sua volta. Fiquei constrangido e dei o fora dali.

17h - Não sou um exímio seguidor das revelações pregadas pela Igreja Católica, e sendo bem radical, acho que ela está falindo com esse novo Iluminismo liderado pelo Google. O que é bem natural, se você pensar que esse papo de Criacionismo é uma falácia sem precedentes na história da humanidade. Mas uma coisa devo admitir, ela sabe impressionar. Para que suas ideias absurdas fossem ouvidas, construíram monumentos que assustam pela grandiosidade. A Basílica de São Pedro é algo que transcende tudo o que existe no mundo normal. Bons marqueteiros, esses fundadores da religião.

19h10 - Quase perco o trem por causa de dois minutos - só dois míseros minutos. Durante todo o dia o meu relógio estava atrasando uns 3 segundos a cada minuto, causando um efeito devastador para quem deveria estar na estação as 19h10 em ponto. Por sorte conferi a hora no enorme relógio da estação e vi que estava assustadoramente em cima da hora. Entrei em desespero e sai correndo em direção ao trem que se preparava para partir. Daria uma boa cena para o cinema, caso algum cineasta sem inspiração estivesse por perto. Entrei no primeiro vagão que vi e assim que me sentei, joguei meu relógio pela janela. Relógio que atrasa não adianta.

(Continua no próximo episódio).

sábado, 20 de agosto de 2011

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(Monza) 08/08
7h45 - Já falei aqui da minha paixão pela Fórmula 1, e se pensarmos que há muito tempo ela - a Fórmula 1 - deixou de ser esporte para virar apenas um negócio frio e mesquinho, diria que trata-se de uma paixão bem idiota. Mas já que estávamos baseados em Milão e consequentemente nos encontrávamos muito próximos de um grande templo da Fórmula 1, resolvemos ir conhecer o mitológico autódromo de Monza. E o plano era bem simples. Alugar um carro, pegar a estrada para Monza, conhecer tudo o que fosse possível e voltar para o hotel no fim do dia felizes da vida. É, o plano era bom, mas na prática foi uma lambança.

8h19 - O mocorongo aqui, ao reservar o carro pela internet, não clicou na opção "Deseja incluir GPS por 17 Euros a mais?". Na hora eu converti para reais brazilianos e pensei: quem precisa de um maldito GPS? Conheço esse país como a palma de quem me cobra o aluguel. Não imaginava que não ter optado pelo GPS me causaria tantos problemas em um espaço tão curto de tempo.

8h36 - Só depois que deixei a garagem da locadora Hertz guiando um Volkswagen Polo prata movido à diesel foi que notei que tinha feito uma grande merda. Sequer tinha saído do prédio de estacionamentos e já estava completamente perdido. Sabia apenas que deveria ir para o Parco di Monza, mas não tinha a mínima noção de qual rumo deveria tomar. Olhei para a posição do sol, me orientei da forma mais primitiva possível e tentei lembrar do Google Earth - noroeste, eu acho. Duas horas e quarenta minutos se passaram e eu ainda estava dentro de Milão rodando igual a uma barata vesga. Foi então que avistei a primeira placa para Monza. Agora vai!

11h24 - Quatro minutos depois eu estava ainda mais perdido, a placa indicava para o residencial Monza, claro! E já que eu estava na Itália, lembrei do velho ditado: quem tem boca, vai a Roma. Vai, se falar italiano. Nem o ditado me dava esperanças de achar um rumo. Pedi informação para pelo menos 15 pessoas, todas, e absolutamente todas, deram informações desencontradas. Aquilo estava se tornando uma maldição. Meu medo já não era mais não achar o autódromo, temia não encontrar o Brasil para voltar um dia.

11h49 - Num golpe de pura sorte caímos na Viale di Monza, e nela tinha umas plaquinhas toscas com o símbolo de um Fórmula 1. Isso, deveras, foi uma imagem que jamais me esquecerei. O Mar Vermelho se abriu e seguimos as plaquinhas confiantes, havíamos encontrado uma luz no fim do túnel (que clichê isso).

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Meu pai e eu, fotografando no centro da pista. Não deve ser um bom lugar para se estar na hora da largada.

12h18 - O Autódromo Nazionale de Monza é considerado pelo Glavão por muitos entendidos do assunto como o grande templo da Fórmula 1. Nenhum piloto é considerado grande se não vencer em Monza - uma teoria bastante questionável, já que Rubinho venceu lá - e por duas vezes, em 2002 e 2009. Duvida? Eu sei, é difícil de acreditar numa sandice dessa, mas veja a prova nos vídeos a seguir:


Em 2002, com Schumacher no cangote.


Em 2009, com o Galvão quase chorando na narração.

13h11 - O sol cozinhava o asfalto sagrado do circuito italiano quando eu pisei no que conhecemos como a grande reta - a mesma reta do "Rubens, Rubens, Rubens Barrichello do Brasil!". E já que estamos falando de um verdadeiro santuário automobilístico, confesso que fiquei um pouquinho decepcionado com a coisa toda. Santo Deus, é Monza! Pensava enquanto ia caminhando e encontrando diversas imperfeições na pista. Na tevê é tudo muito mais maquiado, ali é só uma rua asfaltada com umas arquibancadas bestas.

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E tem gente que critica Jacarepaguá.

14h - Fora isso, admito que era um dia de sorte. As cinco pratas europeias que pagamos para visitar o parque nos deram o privilégio de acompanhar um teste de pneus da Pirelli. Lá tinha um cidadão dando umas voltas com um carro de turismo - um Porsche, se não me engano. Foi indescritível a sensação de estar na pista vendo um carro de corrida passar ao nosso lado a 300 km/h. Indescritível e bem estúpido, confesso. Se fosse um Katayama da vida que estivesse pilotando o risco seria imenso. Por sorte, apenas desfrutamos um pouquinho do prazer que esse esporte/negócio proporciona aos seus milhares de amantes.

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Não sei o que escrever nesta legenda, pensando bem, por que diabo estou colocando legenda nas fotos?

16h08 - Voltei a Milão com a certeza do dever cumprido. Vi Monza de um ângulo que jamais me fará assistir à uma corrida Fórmula 1 com os mesmos olhos. A partir de agora, sempre que eu ver alguma coisa com muito fru-fru na tevê não vou conseguir deixar de imaginar que aquilo certamente está cheio de Photoshop. De qualquer forma, a lição que eu aprendi nesse grande dia foi: pague a mais pela porra do GPS!

(Continua no próximo episódio).

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Diário de viagem | As aventuras de um publicitário disfarçado de turista

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(Veneza) 07/08
5h50 - Ir a Itália e não visitar Veneza seria uma tremenda estupidez. Cientes disso, decidimos que o domingo seria o melhor dia. Nosso trem sairia da imensa estação central de Milão as 6h35min – e não seria nem às 6h34, nem às 6h36 - era às 6 horas e 35 minutos, precisamente. Foi o que fez questão de frisar o simpático italiano que me atendeu no balcão da Trenitalia - popular companhia de trem daquele país. Eu confirmei tudo com o meu italiano de araque e garanti que estaria no local combinado para o embarque. Mas para o nosso sufoco naquela manhã, acordamos atrasados e pela primeira vez na vida eu vivi na pele a expressão “correr para não perder o trem”.

6h35 - Eu imaginava que em determinado momento da viagem teria que apresentar meus bilhetes que custaram pouco mais de 60 Euros. O que seria bem normal, diga-se de passagem. Mas me impressionei de verdade com o fato de não ter sido abordado por nenhum funcionário da Trenitalia durante todo o trajeto. Fui sem ter que provar a ninguém que paguei pelo direito de usar aquela poltrona. Ainda não me acostumei com essa relação de confiança que eles mantêm com as pessoas naquele continente. Sempre pensei que o mundo não tinha mais solução.

9h10 - A Estação Santa Lucia é uma das duas estações de trem que existem em Veneza, a outra chama-se Mestre e encontra-se na parte da cidade que fica em terra firme. Se optar pela primeira, cairá dentro de Veneza e terá logo de cara uma linda vista como cartão de visitas. Se optar pela segunda, se arrependerá pelo resto da vida - trata-se de uma estação distante e feia. Veneza nos foi apresentada naquele inesquecível 7 de agosto de 2011, um lugar que merece a enorme fama que tem.

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9h35 - A estratégia que adotamos para conhecer a mundialmente famosa “sereníssima” foi bem peculiar. Falamos apenas: vamos nos perder aqui. E assim o fizemos. Nos embrenhamos sem rumo por seus belíssimos guetos, canais, museus e monumentos. Nada ali era feio, passeamos pela praça e Basílica de São Marcos, pela zona ribeirinha, o grande canal - que é a maior via aquática de tráfego da cidade - a famosa ponte de Rialto até desaguarmos no Mar Adriático. Sem dúvidas, é um bom lugar para se perder.

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12h40 - Almocei um espaguete preto – ou algo muito parecido com isso. Também existe a remota possibilidade de ter sido alguma espécie exótica de minhocuçu. Prefiro a dúvida. A garçonete era uma holandesa absurdamente simpática, que estava ali trabalhando por hobbie. Não sabia que existe gente que trabalha por hobbie. Pensando bem, que maldito hobbie é esse? Perguntei a ela se conferia a informação que na Holanda todo mundo fuma maconha. E a partir desse momento ela deixou de ser simpática e me serviu os minhocuçus. Pelo menos eu bebi a melhor Beck's do mundo.

13h55 - Dito isso, duas impressões que eu tive sobre Veneza: 1, é uma cidade surpreendentemente grande e não apenas aquele cocozinho bonitinho que eu imaginava. E 2, pessoas estranhas surgem de todos os lados. Tem todo tipo de bípede caminhando e navegando naquele pedaço de planeta, desde russos, americanos, equatorianos, neozelandeses, angolanos, até japoneses, canadenses, franceses e se procurar bem, até alguns alienígenas. Decididamente, um lugar que recebe muitos turistas torna-se um grande pé no saco. Pra tudo tem uma fila, falta oxigênio, é quente, fede, as coisas são caras, e das duas, uma: ou alguém sempre esbarra em você a cada 30 metros, ou alguém pede pra você tirar uma foto dela a cada 30 metros.

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16h30 - Começou a chover quando eu tive a segunda grande ideia de jerico do dia. Sugeri a todos que tirássemos os sapatos e colocássemos os pés nas geladas águas do Adriático. Não sei qual é a graça disso, só serviu para enlamear tudo e causar um novo desconforto ao grupo.

17h51 - Comprei alguns vinhos da Toscana em uma espécie de tenda móvel, tava lá o cartaz reluzente: Vinho da Toscana: € 8. Cacilda, que barato! Pensei. Uma água custava 2,5. Depois converti para Reais e vi que não era essa pechincha toda. Aprendi com as baianas de San Siro/Giuseppe Meazza que na Europa existe apenas uma regra que diz que quem converte não se diverte. Parei de converter e comprei 5 garrafas do legítimo vinho da região de Florença (pelo meu eu acho que são legítimos) e os coloquei na mochila. A partir dali virei uma mula pelo resto do dia, aquilo pesava mais que um saco de cimento molhado.

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19h45 - Voltamos para Milão em um desses famosos trens de alta velocidade, que sinceramente, parecia ter a mesma rapidez de todos os demais. Puro marketing para cobrarem mais caro pela passagem, suspeitei. E falando em passagens, pergunte-me se alguém precisou apresentá-las na volta? Mundo esquisito, esse nosso.

(Continua no próximo episódio).

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Diário de viagem | As aventuras de um publicitário disfarçado de turista

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(Milão) 06/08
8h05 - Eu tinha um cronograma, era o meu guia. Nunca viajo sem algumas esquisitices, uma delas é a minha planilha de Excel pendurada no pescoço. Não visito lugares, cumpro um check list. Isso ajuda a evitar grandes merdas, pelo menos, eu acho. Nessa viagem pela Europa eu fiz o maior de todos os meus cronogramas, quase sete páginas com tudo minuciosamente detalhado, horários, valores, rotas, taxas, distâncias, telefones, condições climáticas, etc, etc, etc. Para mim, o cronograma é quase como um guia espiritual. Ao perceber isso, notei que meus pais se perguntavam: "qual é o problema desse cara?" A questão é que tem sido uma boa providência. E naquele sábado ensolarado na capital da Lombardia o cronograma nos mandava ir para o Duomo, sede da Arquidiocese de Milão. A Duomo di Milano é uma das mais famosas arquiteturas de estilo gótico e sua construção foi iniciada em 1386 e só concluída em 1813. Se fosse no Brasil, levaria o dobro de tempo, custaria quatro vezes mais e teria problemas de infiltração. Uma observação nada nacionalista, devo admitir. Mas antes de chegar ao nosso destino naquela agradável manhã, uma miragem nos paralisou nos obrigando a fazer uma escala fora do santo cronograma. Era uma loja oficial da Ferrari, ou se preferir, uma Ferrari Store.

8h25 - Herdei de meu pai a paixão pela Fórmula 1, e acompanho o pagode desde os tempos de Michele Alboreto. Vi Olivier Panis ganhar em Mônaco, Rubinho perder, Schumacher ganhar tudo e ser odiado por isso, Rubinho perder de novo, Senna se acidentar fatalmente numa curva em San Marino, Rubinho perder mais uma vez, Mansell fazer maluquices, Rubinho perder e lamentar pela falta de sorte, Massa quase ser campeão na última curva da temporada e Rubinho ganhar em Hockenheim (graças a um irlandês desmiolado que invadiu a pista, mas ganhou). A loja oficial da Ferrari estava pra mim e meu pai assim como uma liquidação em shopping estava para a minha mãe e namorada. Elas entenderam o que aquilo representava e fomos visitar o nosso parque de diversões. Logo na entrada tinha uma réplica perfeita de um modelo guiado por Schumacher em 2002. O carro em formato de grilo era exibido na vitrine como se fosse uma joia, e de fato, não deixava de ser. O vermelho exclusivo, o ronco, os detalhes aerodinâmicos, muitos detalhes, tudo impressionava. Como sabem fazer um bom marketing, esses caras de Maranello. Andamos por tudo, preços exorbitantes, produtos de todos os gêneros e uma legião de fãs vindos de todos os cantos do mundo. No fim eu sai com a minha primeira compra em solo europeu: um perfume da Scuderia italiana. Tinha certeza que o perderia ou quebraria até o fim do dia.

10h10 - Nada mais importava depois de tocar em um autêntico motor V10 de Fórmula 1, nem a Duomo. Caminhamos por uma imensa praça em frente e fomos almoçar. O próximo destino era o Parco Sempione e Castello Sforzesco, verdadeiros patrimônios da belíssima e ensolarada Milão.

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:: O motor V10 usado por Schumi em uma corrida estava a venda. Só não comprei porque não caberia na mala.

13h39 - Pelos meus cálculos, eu deveria ter pelo menos duas ideias de jerico por dia naquela viagem, e a primeira delas foi caminhar por todo o parque, depois andar pelo mesmo trajeto do bondinho até a Piazza Firenze. Totalizando dava uns 2,8 quilômetros. Todos me odiaram depois disso, já que eu era o responsável por cuidar do mapa e informar as distâncias regularmente. No meio da tarde não tínhamos mais pés e ainda faltava conhecer o Estádio Giuseppe Meazza, ou, San Siro - depende qual time está jogando, Milan ou Internazionale de Milão.

15h40 - Na Piazza Firenze encontramos duas brasileiras que aguardavam o Green Bus - assim eles chamam os ônibus, que curiosamente, são alaranjados. Eram baianas, as garotas. Até onde entendi, elas moravam na cidade temporariamente para aprender o idioma local. Não entendo como alguém pode aprender italiano andando sempre em dupla e conversando em português 90% do tempo. Desconfio que elas estavam lá por outros motivos. Perguntamos para onde iam e responderam em uníssono: - San Giuseppe Siro Meazza. Cada uma devia torcer por um dos times. - E vocês? - Perguntaram. - Também, mas estamos indo a pé. - Respondemos. - A pé?! São doentes da cabeça? É muito longe. - Todos olharam pra mim com cara feia. Fomos de Green Bus.

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:: O gesto acima é para lembrar do placar da final do Mundial de Interclubes de 1993: São Paulo 3 x 2 Milan. Eu sei, ficou estúpido.

16h05 - Confesso que me surpreendi com o San Siro/Giuseppe Meazza - e olha que raramente me surpreendo. Imaginava que seria uma Arena da Baixada mais enjoada. Ao invés disso, encontrei uma lapa de estádio, mais ou menos do tamanho da Grande Muralha da China. Um tour guiado era ofertado por salgados 12,50 dinheiros continentais, e já que estávamos ali, chamamos as baianas e nos dirigimos ao guichê de ingressos. Com meu inglês fiskeniano perguntei: - Good afternoon, do you speak portuguese? - E para mais uma surpresa, a moça do outro lado do vidro respondeu num português perfeito e sem qualquer resquício de sotaque: - Sim, falo bem o português, vocês querem conhecer o estádio? São brasileiros? - Era como se seu conversasse com a Fátima Bernardes. Impressionante, a fluência da moça. Também é possível que ela fosse brasileira e estivesse ali para aprender outros idiomas. Mas fiquei com vergonha de perguntar e novamente me passar por idiota.

16h12 - Dentro do estádio, tudo rigorosamente dividido ao meio: metade rubro-negro, metade azul e preto. O vestiário o lado do Milan era mais frescos, cheio de futilidades que só serviam para deixar o jogador mais aboiolado. Por isso eu gosto da Libertadores, lá não tem toda essa bichisse da Europa, o jogador tem que ser cascudo se quiser ir longe. Sentei no mesmo banco do Pato e terminei de ouvir a empolgada guia falando dos escudetos - quase a corrigi em determinado momento, mas achei melhor calar a boca e apenas ouvir.

17h03 - Nos despedimos das baianas e partimos para a charmosa avenida Buenos Aires, por sorte tinha um Green Point bem na frente do estádio (mania de chamar tudo de green). Um detalhe: não existe cobrador nos ônibus, muito menos catraca. Você entra, passa o bilhete de papel por um leitor e senta, tudo na confiança. Achei curioso e imaginei se existiria uma chance mínima disso funcionar no Brasil.

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:: A minha cara de mané é para lembrar do famoso slogan da Benetton endeusado pelas lentes de Olivieri Toscani.

17h25 - A avenida Buenos Aires é uma Paulista em miniatura. Lá concentra-se o principal centro de compras da cidade, é recheada por lojas de grandes marcas e emoldurada por uma arquitetura singular. A larga avenida inicia-se no Giardini Pubblici Indro Montanelli e vai até uma imensa rotatória que eu não sei o nome - nem sei se dão nomes às rotatórias naquele país. Tecnicamente, esse seria o único dia em que desbravaríamos Milão, por isso optamos por caminhar pela avenida observando todos os seus ricos detalhes. O ar cosmopolita do local, aliado com o jeitão hospitaleiro do milanês nos passou uma boa impressão do lugar. Fora a velhinha no aeroporto, foi uma ótima receptividade. E eu que nem sonhava que a melhor parte ainda estava por vir.

(Continua no próximo episódio).

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Diário de viagem | As aventuras de um publicitário disfarçado de turista

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(Continuação do post anterior)
(Paris) 05/08
8h25 - Chego a Paris com a bunda quadrada. As poltronas não eram tão confortáveis assim, potencializado ainda pelo fato de eu não ter dormido um só minuto - não queria perder nenhum mimo oferecido pela simpática tripulação daquele voo. E tinha de tudo: frango, massas, vinho tinto, vinho branco, doces, sorvetes... Santo Deus! Como eu comi naquele avião! Fiz valer meus pobres reais naquele banquete voador, acho até que dei prejuízo. Assim que pousamos as mensagens multilíngues ouvidas nos sistemas de som da aeronave diziam que tínhamos acabado de chegar ao monumental Aeroporto Charles de Gaulle. Na hora não tinha nenhum Google por perto, mas tinha a impressão que esse tal de Charles de Gaulle havia descido a lenha no Brasil em algum momento da história recente. Se não me engano (e normalmente eu me engano), foi ele quem teria afirmado que não somos um país sério. Depois eu pesquisei e mais uma vez confirmei meu equívoco, quem disse a célebre frase "Le Brésil n’est pas um pays sérieux" não foi o estadista francês, e sim o embaixador brasileiro em Paris na época, Carlos Alves de Souz. Quem fez a confusão toda foi a imprensa dos dois países e a bagaça saiu do controle.

8h40 - Enquanto andava pela área de desembarque atrás da minha conexão para Milão percebi que estava sensivelmente atrasado. Que coisa, tanto tempo jogado fora em Garulhos e agora o tempo me era escasso. Mas, tudo bem, a minha cordial agente de viagens me disse que não havia problema nessa conexão, era só descer no Charles de Gaulle, entrar no avião que ia para a Itália e aproveitar as férias tomando todo o Martini que eu conseguisse. Mas quando cheguei ao balcão da Air France e perguntei pelo avião que iria para o país da bota, uma ruiva sorriu e disse num francês frio e impecável: - Senhor, o seu avião para Milão já partiu. O senhor perdeu essa conexão. Essa frase ecoou na minha cabeça: "O senhor perdeu essa conexão... conexão... nexão... ão..." E que horas eu bebo o meu Martini? Pensei.

8h50 - Imagine a cena: Eu, brasileiro matuto, perguntando em espanhol do Fisk, para uma funcionária francesa, sobre um voo de uma companhia italiana que eu acabara de perder e precisava remarcar. Não foi um diálogo no qual Shakespeare se inspiraria, mas ela acabou me dando um cartão impresso com o meu nome e duas fichas. Por Deus! Eram duas fichas que eu não tinha a mínima noção para que serviam. Tinha uma espécie de QR Code nelas, seria para um café grátis? Ou para usar a internet em algum ponto do aeroporto? Ou um cupom de desconto na compra de uma geladeira na Casas Bahia? Eu não sabia, joguei no lixo assim que uma coreana mal-humorada autorizou a minha entrada na sala de embarque para Milão. Seria necessário mais horas de espera.

9h55 - Neste momento eu deveria estar voando para as minhas tão esperadas férias no país em que viveram meus bisavós, imaginando como eram suas vidas naquelas belíssimas regiões produtoras de vinho, contemplando as plantações de uvas, as autoestradas que rasgam a Itália, as pontes da época do Império, os castelos medievais, mas ao invés disso eu estava sentando numa cadeira olhando para uma parede cinza. Nem Paris eu estava aproveitando, a conexão, definitivamente, me desconectou. Pensando bem, bem veadinho este termo "conexão". Na minha terra é baldeação mesmo, igual as que eu pegava lá no Guarantã do Norte, terra do garimpo. Lá o motorista do buzão todo estourado dava um berro e todo mundo caia pra dentro em menos de um minuto. Aqui, a francesa com cara de espanador me diz que eu perdi a conexão e tenho aguardar o próximo voo com um QR Code nas mãos.

14h55 - Tudo pronto para Alitália me tirar daquele lugar. Assim que entrei perguntei ao italiano com jeitão de indiano: - É Boeing ou Airbus? - Airbus, senhor. Um A319 exatamente. Respondeu. - Ufa! Ainda bem que não é um A313! Completei rindo da minha própria piada, mas ele fechou a cara. Não deve ter entendido, muito menos gostado da piada zagaliana. Pelo que entendi, a Alitália é uma Gol metida a besta. O Avião é do tamanho de um aspirador de pó e eles separam por classes para voar por 80 minutos. Pelo menos eles servem cerveja de graça, e isso compensa tudo. Assim que deixamos o imponente CDG com metade dos assentos vazios a aeromoça me perguntou: - Beer? E eu: - Always! Então ela quis saber a marca. Como assim... a marca? - Pensei - Como se ela tivesse todas as marcas do mundo disponíveis ali na prateleira e dissesse: pode pedir que eu tenho, seu brasileiro de merda. Eu deveria ter sacaneado e pedido uma Volcanes, mas fui bonzinho e pedi uma Heineken. E como num passe de mágica ela saca uma lata da cerveja neerlandesa e cala a minha boca pelo resto do voo.

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(Milão)
16h30 - Se eu fosse o prefeito de Milão usaria o seguinte slogan: Se a Itália é Mil, aqui é Milão. Hã? Hã? Hã?... Não?! Ok. Não! Mas é uma cidade nota mil. Limpa, absurdamente organizada, cheia de opções, e tudo isso eu conclui olhando lá de cima, onde é mais fácil ver alguma porcaria. O aeroporto de Linate, um dos dois que existem na cidade, é meio esculhambadão, mas nada que prejudique. Assim que chegamos tivemos uma recepção tipicamente italiana. Minha namorada esbarrou em uma senhora de 70 anos e ela expeliu aproximadamente 30 palavrões a plenos pulmões. Eu pude notar uma veia do seu pescoço saltando enquanto ela berrava. Não entendemos nenhum daqueles calões, mas deu pra sacar que não é uma boa ideia sair esbarrando nas pessoas naquele país. Malas no carrinho e o cansaço extremo nos obrigou a pedir um táxi - 60 Euros com Mastercard. De ônibus dava pra ir por menos de 15, mas quando vi que não era apenas um táxi, e sim um Mercedes Classe E, os 60 euros se tornaram 60 reais. Fui de táxi, se sabe.

17h05 - O hotel no centro da cidade foi uma cagada. Fiz as reservas pela internet já imaginando o pior. Ou ninguém saberia de nada quando ou chegasse ou as fotos do anúncio eram fakes e eu morreria afogado nos ácaros. Nenhum, nem outro. O Bestern Western Felice Casati é um hotel de primeira, impecável, fenomenal, magnífico, se deixassem, moraria lá pelo resto da vida - apesar dos quase 500 euros por seis míseras noites. Um rápido banho e o ímpeto por explorar as redondezas me fez rumar para o primeiro ponto turístico da Europa minutos após a minha chegada. O Giardini Pubblici Indro Montanelli é um parque histórico urbano de Milão onde está o Museu de História Natural da cidade, fundada em 1838. É um dos mais importantes museus de história natural da Europa. E sim, eu copiei isso do Wikipédia. A foto ao lado mostra bem a minha empolgação diante das novidades.

20h30 - Eu ainda caminhava pelo cartão postal disfarçado de parque quando percebi que tinha algo errado com o mundo. Eram quase nove horas da noite e ainda estava claro, como era possível? Nem no Guarantão veio de guerra anoitecia tão tarde, então pensei: ou aquilo era uma espécie de ilha de Lost ou aquela aeromoça colocou alguma coisa na minha Heineken. Claro que no ápice da minha ignorância geográfica eu não tinha imaginado que estava em outro hemisfério, e por isso a minha posição em relação ao sol era outra. Por isso os dias eram mais longos. Estúpido! Deveria comer para deixar de pensar em tanta asneira.

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21h05 - É claro que eu não lembro o nome do restaurante, é para isso existe o Google Maps. Lá eu descobri que comemos no Ristoranti Lucca, rua Panfilo Castaldi, nº 33, Cep 20124. Uma pizza napolitana acompanhado de vinho tinto da Toscana para quem adivinhar o que eu pedi. Sempre tive toda a curiosidade do mundo para saber se na Itália comia-se tão bem assim, e esses malditos livros do John Grisham só aumentavam o meu interesse. Pois naquela noite eu descobri que toda a fama não era a toa, a culinária italiana é, de fato, tudo isso e mais um pouco. Risquei mais um item da minha Lista da Bota justamente no País da Bota.

(Continua no próximo capítulo (sempre quis dizer isso)).

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Diário de viagem | As aventuras de um publicitário disfarçado de turista

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(São Paulo) 04/08
7h15 - Uma das 37 grandes desvantagens de não se morar no Eixo Rio-SP é ter que acordar cedo para pegar conexão para um voo internacional. E quando eu digo acordar cedo, me refiro a quase não dormir. Naquela terça-feira cinza-azulada de inverno eu acordei absurdamente cedo em Cuiabá para chegar apenas cedo em São Paulo e esperar mais de nove horas no aeroporto de Guarulhos para finalmente rumar para o nortão desse mundo veio de guerra (acho que faltaram algumas vírgulas nesta última frase, de qualquer forma, aqui estão elas ',,,,,,,', distribua como achar melhor.) Mas como ia dizendo, quando você precisa esperar por algo que vai demorar muito, não importa o que faça, o tempo vai praticamente parar. Ele vai olhar para você e sussurrar ao pé do ouvido: "continue esperando, seu mané". Só me restou sentar e esperar, esperar e esperar.

16h15 - Duas revistinhas de palavras-cruzadas Coquetel, três capítulos do livro "E nós chegamos ao fim", um novo recorde no Tetris do meu celular e quatros capuccinos depois, o voo número 455 da Air France deu as caras no imenso monitor à minha frente. Era hora de começar a minha tão esperada viagem pelo Velho Mundo (não entendo bem este termo, se a Europa tem a mesma idade de todos os outros continentes, porque diabo a chamam de Velho Mundo?). Os dois anos de planejamento terminaram quando a voz em off meio anasalada dizia: "Atenção passageiros Air France com destino a Milão, o embarque está sendo efetuado pelo portão 13 - repetindo: - Atenção passageiros Air France com destino a Milão, o embarque está sendo efetuado pelo portão 13 (...)". Não era um bom número para se começar uma viagem daquelas, mas como bom sagitariano com ascendente em Leão acho uma grande bobagem essas superstições e numerologias. Afinal de contas, com 24 meses de árduo planejamento, o que poderia dar errado?

16h30 - Com um enorme sorriso na cara adentrei a máquina voadora da empresa francesa. Logo após o degrau de delimitava a terra firma do interior da aeronave eu tive o meu primeiro contato com o idioma de Napoleão Bonaparte: - Bon jour! - Bon jour! É Boeing ou Airbus? Perguntei em bom português dirigindo-me ao chefe de cabine. (Não importa a situação, sempre faço essa pergunta quando entro em um avião, mesmo que uma 3ª opção de fabricante se faça provável). - É um Boeing! Respondeu Richard claramente surpreso com aquela pergunta inusitada e igualmente babaca. A propósito, um nome bem francês, o tal de Richard. Seus 40 e poucos anos e um enorme esforço em recepcionar bem os demais viajantes me fez chegar à primeira boa impressão da Air France. A segunda veio quando passei pelas primeiras poltronas do Boeing 777-300, eram senhoras poltronas, com um espaço entre elas que eu jamais vira em anos de voos domésticos. Então pensei controlando minha excitação: que maravilha vai ser essa voyage. Mas em poucos segundos voltei a me sentir babaca porque ali claramente era a primeira classe, a mesma classe na qual eu teria que pagar o dobro caso optasse por ela diante de minha agente de viagens. Dane-se a primeira classe, vamos nos embrenhar mais para o fundão e ver o que temos. Pensava enquanto caminhava entre os amplos monitores individuais de plasma.

16h35 - A poltrona 26E (26 = 13+13) estava lá, a minha espera para quase 13 horas de travessia. Não era tão espaçosa quanto as anteriores, mas tinha lá o seu conforto. O que matou mesmo foi o fato de estar exatamente no centro da fileira, tornando impossível qualquer intenção de espiar o que se passava lá embaixo através da janelinha. Logo eu, que queria tanto ver a península ibérica lá de cima. Paciência! Que venha Milão.
"Q-u-e-v-e-n-h-a-M-i-l-ã-o" = 13 letras.

(Continua no próximo episódio, digo, post).