quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Diário de viagem | As aventuras de um publicitário disfarçado de turista

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(Continuação do post anterior)
(Milão) 06/08
8h05 - Eu tinha um cronograma, era o meu guia. Nunca viajo sem algumas esquisitices, uma delas é a minha planilha de Excel pendurada no pescoço. Não visito lugares, cumpro um check list. Isso ajuda a evitar grandes merdas, pelo menos, eu acho. Nessa viagem pela Europa eu fiz o maior de todos os meus cronogramas, quase sete páginas com tudo minuciosamente detalhado, horários, valores, rotas, taxas, distâncias, telefones, condições climáticas, etc, etc, etc. Para mim, o cronograma é quase como um guia espiritual. Ao perceber isso, notei que meus pais se perguntavam: "qual é o problema desse cara?" A questão é que tem sido uma boa providência. E naquele sábado ensolarado na capital da Lombardia o cronograma nos mandava ir para o Duomo, sede da Arquidiocese de Milão. A Duomo di Milano é uma das mais famosas arquiteturas de estilo gótico e sua construção foi iniciada em 1386 e só concluída em 1813. Se fosse no Brasil, levaria o dobro de tempo, custaria quatro vezes mais e teria problemas de infiltração. Uma observação nada nacionalista, devo admitir. Mas antes de chegar ao nosso destino naquela agradável manhã, uma miragem nos paralisou nos obrigando a fazer uma escala fora do santo cronograma. Era uma loja oficial da Ferrari, ou se preferir, uma Ferrari Store.

8h25 - Herdei de meu pai a paixão pela Fórmula 1, e acompanho o pagode desde os tempos de Michele Alboreto. Vi Olivier Panis ganhar em Mônaco, Rubinho perder, Schumacher ganhar tudo e ser odiado por isso, Rubinho perder de novo, Senna se acidentar fatalmente numa curva em San Marino, Rubinho perder mais uma vez, Mansell fazer maluquices, Rubinho perder e lamentar pela falta de sorte, Massa quase ser campeão na última curva da temporada e Rubinho ganhar em Hockenheim (graças a um irlandês desmiolado que invadiu a pista, mas ganhou). A loja oficial da Ferrari estava pra mim e meu pai assim como uma liquidação em shopping estava para a minha mãe e namorada. Elas entenderam o que aquilo representava e fomos visitar o nosso parque de diversões. Logo na entrada tinha uma réplica perfeita de um modelo guiado por Schumacher em 2002. O carro em formato de grilo era exibido na vitrine como se fosse uma joia, e de fato, não deixava de ser. O vermelho exclusivo, o ronco, os detalhes aerodinâmicos, muitos detalhes, tudo impressionava. Como sabem fazer um bom marketing, esses caras de Maranello. Andamos por tudo, preços exorbitantes, produtos de todos os gêneros e uma legião de fãs vindos de todos os cantos do mundo. No fim eu sai com a minha primeira compra em solo europeu: um perfume da Scuderia italiana. Tinha certeza que o perderia ou quebraria até o fim do dia.

10h10 - Nada mais importava depois de tocar em um autêntico motor V10 de Fórmula 1, nem a Duomo. Caminhamos por uma imensa praça em frente e fomos almoçar. O próximo destino era o Parco Sempione e Castello Sforzesco, verdadeiros patrimônios da belíssima e ensolarada Milão.

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:: O motor V10 usado por Schumi em uma corrida estava a venda. Só não comprei porque não caberia na mala.

13h39 - Pelos meus cálculos, eu deveria ter pelo menos duas ideias de jerico por dia naquela viagem, e a primeira delas foi caminhar por todo o parque, depois andar pelo mesmo trajeto do bondinho até a Piazza Firenze. Totalizando dava uns 2,8 quilômetros. Todos me odiaram depois disso, já que eu era o responsável por cuidar do mapa e informar as distâncias regularmente. No meio da tarde não tínhamos mais pés e ainda faltava conhecer o Estádio Giuseppe Meazza, ou, San Siro - depende qual time está jogando, Milan ou Internazionale de Milão.

15h40 - Na Piazza Firenze encontramos duas brasileiras que aguardavam o Green Bus - assim eles chamam os ônibus, que curiosamente, são alaranjados. Eram baianas, as garotas. Até onde entendi, elas moravam na cidade temporariamente para aprender o idioma local. Não entendo como alguém pode aprender italiano andando sempre em dupla e conversando em português 90% do tempo. Desconfio que elas estavam lá por outros motivos. Perguntamos para onde iam e responderam em uníssono: - San Giuseppe Siro Meazza. Cada uma devia torcer por um dos times. - E vocês? - Perguntaram. - Também, mas estamos indo a pé. - Respondemos. - A pé?! São doentes da cabeça? É muito longe. - Todos olharam pra mim com cara feia. Fomos de Green Bus.

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:: O gesto acima é para lembrar do placar da final do Mundial de Interclubes de 1993: São Paulo 3 x 2 Milan. Eu sei, ficou estúpido.

16h05 - Confesso que me surpreendi com o San Siro/Giuseppe Meazza - e olha que raramente me surpreendo. Imaginava que seria uma Arena da Baixada mais enjoada. Ao invés disso, encontrei uma lapa de estádio, mais ou menos do tamanho da Grande Muralha da China. Um tour guiado era ofertado por salgados 12,50 dinheiros continentais, e já que estávamos ali, chamamos as baianas e nos dirigimos ao guichê de ingressos. Com meu inglês fiskeniano perguntei: - Good afternoon, do you speak portuguese? - E para mais uma surpresa, a moça do outro lado do vidro respondeu num português perfeito e sem qualquer resquício de sotaque: - Sim, falo bem o português, vocês querem conhecer o estádio? São brasileiros? - Era como se seu conversasse com a Fátima Bernardes. Impressionante, a fluência da moça. Também é possível que ela fosse brasileira e estivesse ali para aprender outros idiomas. Mas fiquei com vergonha de perguntar e novamente me passar por idiota.

16h12 - Dentro do estádio, tudo rigorosamente dividido ao meio: metade rubro-negro, metade azul e preto. O vestiário o lado do Milan era mais frescos, cheio de futilidades que só serviam para deixar o jogador mais aboiolado. Por isso eu gosto da Libertadores, lá não tem toda essa bichisse da Europa, o jogador tem que ser cascudo se quiser ir longe. Sentei no mesmo banco do Pato e terminei de ouvir a empolgada guia falando dos escudetos - quase a corrigi em determinado momento, mas achei melhor calar a boca e apenas ouvir.

17h03 - Nos despedimos das baianas e partimos para a charmosa avenida Buenos Aires, por sorte tinha um Green Point bem na frente do estádio (mania de chamar tudo de green). Um detalhe: não existe cobrador nos ônibus, muito menos catraca. Você entra, passa o bilhete de papel por um leitor e senta, tudo na confiança. Achei curioso e imaginei se existiria uma chance mínima disso funcionar no Brasil.

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:: A minha cara de mané é para lembrar do famoso slogan da Benetton endeusado pelas lentes de Olivieri Toscani.

17h25 - A avenida Buenos Aires é uma Paulista em miniatura. Lá concentra-se o principal centro de compras da cidade, é recheada por lojas de grandes marcas e emoldurada por uma arquitetura singular. A larga avenida inicia-se no Giardini Pubblici Indro Montanelli e vai até uma imensa rotatória que eu não sei o nome - nem sei se dão nomes às rotatórias naquele país. Tecnicamente, esse seria o único dia em que desbravaríamos Milão, por isso optamos por caminhar pela avenida observando todos os seus ricos detalhes. O ar cosmopolita do local, aliado com o jeitão hospitaleiro do milanês nos passou uma boa impressão do lugar. Fora a velhinha no aeroporto, foi uma ótima receptividade. E eu que nem sonhava que a melhor parte ainda estava por vir.

(Continua no próximo episódio).

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