(Continuação do post anterior)
(Milão) 11/08
7h32 - Era a manhã de um dos
dias mais confusos da minha vida - e olha que eu já tive dias
incrivelmente confusos. Eu precisava fazer cinco coisas especialmente
difíceis, eram elas: 1, fazer o check-out, em italiano, no hotel em
Milão; 2, buscar a máquina que estava presa (isso mesmo, carro em
italiano é "máquina", e estacionado é "preso"). Meu carro não estava
estacionado na garagem, ele estava preso na garagem; 3, encontrar o
Aeroporto de Linate em menos de uma hora; 4, encontrar a garagem da
Hertz dentro do aeroporto em menos de 1 hora; 5, não bater e/ou fazer
nenhum cagada com a maledeta máquina.
10h30 - Fui mais ou menos bem até a terceira fase, mas a casa caiu
quando eu encontrei de tudo, menos a desgraça da Hertz dentro do aeroporto. Tive que pagar relocação do carro por questão de minutos e
quase perdi o voo para Paris. Se o aeroporto premiasse o idiota do mês,
eu levaria fácil, teria uma plaquinha com a minha foto em algum lugar
do saguão. Rodei por todos os metros quadrados daquele lugar, pedi
informação para 15 pessoas e duas estátuas. Eu já estava me
convencendo que aquela locadora não existia, e o Google Maps estava abusando da minha nobreza. Cheguei ao cúmulo de perguntar quatro vezes para o mesmo
sujeito. E já que toquei no assunto, permita-me
reproduzir os quatro diálogos que tive com aquele italiano que cuidava
de uma pequena guarita. Era um italiano gordo, de 50 e poucos anos e aparentava
estar naquele trabalho há muitos anos. Ele não era feliz. Seu bigode branco e avantajado
me fazia lembrar de algum personagem do Pica-Pau, Leôncio, eu acho (não sou muito bom para lembrar os nomes dos personagens do Pica-Pau) .
Diálogo 1 (08h06):
Eu: Senhor, por favor, pode me informar onde fica a loja da Hertz? Preciso devolver esta máquina até as 9h30.
Italiano com cara de Leôncio: Está perdido? Compre um mapa, idiota!
Diálogo 2 (08h50):
Eu: Senhor, eu de novo, o idiota. Desculpe incomodar, mas já pedi
informação para outras três pessoas e ninguém soube me orientar, só
tenho mais 40 minutos para devolver o carro, digo, a máquina. Onde fica
a Hertz?
Italiano com cara de Leôncio: Além de idiota, você é surdo? Mandei comprar um mapa.
Diálogo 3 (09h10):
Eu: Senhor, faltam 20 minutos e eu te dou 50 Euros se você me levar até a loja da Hertz.
Italiano com cara de Leôncio: Hahahahahahahhahahaha... espera um pouco, preciso respirar: hahahahahahahahahahahahaha.... hahahahahahahahahahahahaha....
Diálogo 4 (10h30):
Eu: Senhor, já perdi o prazo de entrega do carro, será que agora você pode me informar onde fica a Hertz?
Italiano com cara de Leôncio: É naquela placa amarela 50 metros à sua frente. Ta vendo como você é idiota?
Pelo menos eu economizei 50 Euros. Mas segui o conselho e comprei um mapa.
Se você reparar bem, eu tenho um pouco cara de idiota.
13h - Partimos para Paris
via Alitália. Deixamos para trás uma cidade incrível, limpa,
organizada e com incontáveis motivos para visitá-la novamente. Recomendo a todos
que estão lendo esse diário que use Milão como base quando visitarem a
Europa. Sua posição privilegiada permite que você vá há vários lugares
e volte no mesmo dia. Como eu disse alguns posts atrás, o transporte
público funciona naquele continente.
(Paris)
14h30
- Mais uma vez estou no monumental Aeroporto Charles De Gaulle, e mais
uma vez vejo um Concorde exposto em uma espécie de memorial a céu
aberto. Para apaixonados pela aviação como eu, o Concorde foi algo
único na história iniciada por Santos Dumont. Um mito, diriam os
franceses. Quem voasse na aeronave supersônica, além de chegar bem
rápido aos seus destinos, tinha a sensação única de observar a
envergadura da Terra. Você olhava pela janelinha, via um pouco do
planeta azulado e o imenso breu do espaço - também não sei se era uma
vista muito confortável. Até onde sei, e normalmente meus conhecimentos
não vão muito longe, o Concorde voava a incríveis 60 mil pés de altura.
Possuía uma velocidade de cruzeiro de Mach
2.04, alguma coisa próxima de 2.700 km/h. Isso é nove vezes mais rápido
que um Fórmula 1 (gosto dessas comparações idiotas). O Concorde era tão
especial, que nele não havia classe econômica, só primeira classe. E
para encerrar o assunto Concorde, que diga-se de passagem, já está
enchendo saco, apenas a Air France e British Airways
operavam com o simpático avião. Não devia compensar manter um desses na frota, era só pra fazer graça mesmo. No total apenas 16 foram fabricados em
seus 30 anos de existência. E para quem não sabe, um grave acidente em 2003 fez com que o
modelo nunca mais ganhasse os céus. Uma pena, gostava do Concorde,
apesar de nunca ter entrado em um.

Note as escadas na parte de trás do Concorde. É possível fazer um tour pela aeronave.
14h55 - O Charlles De Gaulle dista (esta palavra existe?) 30 e
poucos quilômetros do centro da cidade, e eu não tinha ideia de como
chegar lá. De táxi, pagaria o preço de um carro popular no Brasil,
praticamente. De ônibus, levaria meses para achar a linha certa. Por
sorte achei uma maquininha, existem maquininhas por toda a parte
naquele país. Você vai tocando na tela e ela cospe bilhetes que
resolvem a sua vida. A maquininha que eu encontrei dizia que eu deveria
alimentá-la com 9 Euros para receber um bilhete de trem. Mania de trem,
têm esses europeus.
15h39 - Depois das devidas baldeações/conexões entre trem e metrô,
chego a tão sonhada estação Charles Michels - era o meu alvo. Pelos meus
cálculos, se chegasse à Charles Michels, chegaria ao hotel. O Google
Street View estava certo, a menos de 100 metros dali esta o Hotel
Ideal, que por fora era lindo. Mas só por fora.
15h44 - Tudo o que o hotel em Milão tinha de bom, o de Paris tinha de
ruim - uma grandeza inversamente proporcional, como diria algum físico. E o detalhe é que ele era até mais caro. Joseph era o
recepcionista, um rapaz de 35 anos, estatura mediana, com uma educação
exemplar - um rapaz bem polido, diria. Falava todos os idiomas da Europa,
menos o português. A propósito, nessa viagem conclui que o português
está para o europeu assim como o javanês está para o brasileiro. Quando
pergunto se fala português, o receptor da mensagem normalmente se
espanta com a pergunta. É como se dissessem: - Esse idioma ainda
existe?
15h56 - Joseph me apresentou algo que eu pensei que não existisse em
nenhum hotel do mundo: um elevador para apenas uma pessoa. Ah, sim, uma
pessoa magra. Eu, que não me consigo gordo, apenas barrigudo, quase não
entrei naquela arapuca. Deus! Éramos em quatro pessoas, tínhamos oito
malas, e o elevador tinha 1 m². Chegar aos respectivos quartos no
quinto andar foi uma verdadeira escalada ao Monte Branco.
16h25 - Assim que conquistei o cume, digo, o quarto, veio em mente o cronograma, eu precisava consultá-lo antes de prosseguir.
A torre fica vermelha no final do dia.
17h - Havia chegado a hora de conhecer a tal Torre Gustave Eiffel. Bom
planejador que estava me tornando naquela viagem, pensei que o melhor
momento para visitá-la seria no final do dia, assim veríamos o famoso
acender das luzes. Segundo relatos, é uma boa coisa para se ver na
vida. Caminhamos até o famoso ponto turístico, nós e toda a população
daquele hemisfério, suspeitava. Brotava gente do chão conforme íamos
nos aproximando da torre.Só Paris recebe 100 mil turistas por dia, tornando qualquer coisa um verdadeiro parto. Você precisa de muita paciência se quiser conhecer os grandes cartões postais da cidade.
Eu devia ter feito a barba, estraguei a foto.
18h30 - Dedicamos o restante do dia para admirar a beleza de construção
que era aquilo tudo, os pouco mais de 300 metros de ferro entrelaçado
hipnotiza pela beleza singular. Belos jardins no entorno provavam a
todo momento porque vale a pena conhecer aquele lugar. A Torre
Eiffel é o símbolo mais proeminente da França e uma das estruturas mais reconhecidas no mundo, e por 40 anos manteve-se como o monumento mais alto do mundo. Para os mais leigos, apenas uma torre de rádio mais enjoada. Em frente a torre fica a Champ de Mars,
uma imensa esplanada que convidava as pessoas a fazerem um romântico
piquenique, tomar um espumante ou apenas serem atingidas por merda de
pombo.
(Continua no próximo episódio).