terça-feira, 31 de julho de 2012

Claro: imagem meramente ilustrativa


Do jeito que as coisas estão, eu sempre desconfio dessas supostas "cagadas". Mas como estamos falando de uma concorrência sem muito senso de humor, prefiro acreditar na hipótese levantada pelo blog nt4bb.

"No momento de fechar o anúncio, a Claro conseguiu um lote imenso de Galaxy Y da Samsung para desovar nos próximos dias em decorrência do Dia dos Pais. Imediatamente, o Atendimento da agência mandou a Criação, que já vinha varando as últimas noites, trocar a arte porque o Assistente de Marketing já estava surtando e queria curtir o final de semana. O Redator, que não saia do Facebook, bolou a célebre frase: “Seu Pai nunca teve tanta velocidade nas mãos” (sabe-se lá o que esse pai fazia tão rápido com as mãos). Nesse momento o Diretor de Arte buscou no banco de imagens do cliente as fotos com o garoto propaganda, acessou o Google Imagens e achou a foto do smartphone, inseriu uma textura e os ícones do celular, cartinha, 3G e mapinha do Brasil. Só faltava salvar e exportar para PDF. O Assistente de Marketing estava preocupado com a informação mais importante do anúncio: “GRÁTIS no Claro Ilimitado 3G”. Mandou um reply no e-mail com o texto: “Ok, Manda Pau!”. O Mídia, que já tinha reservado 1/4 de página no Estadão e na Folha de Domingo, encaminhou! Pronto, agora só falta achar o culpado!"

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Perfis Digigráficos: um olhar sobre o comportamento digital





Se algum dia eu for parafraseado por alguém, quero que digam: "Como diria Luciano Marino, em Marketing é segmentar ou morrer." Sendo assim, compartilho com quem ainda não viu este ótimo estudo sobre segmentação da sempre competente DM9DD. Não é nada muito recente, mas ainda tem muita relevância. O documentário faz uma classificação do consumidor em ambiente digital. A pesquisa conclui basicamente que as mudanças trazidas pelo digital pouco ou nada tem a ver com sexo, idade ou classe social, mas sim com três novos critérios bem definidos:

:: Quanto e como as pessoas utilizam os recursos e equipamentos de tecnologia em sua vida.
:: Quais são as intenções que elas têm ao consumir os diversos produtos digitais.
:: E principalmente, quanto os recursos digitais servem para moldar sua própria identidade.

Ou seja, no mundo digital, não dá pra classificar as pessoas somente por meio dos critérios  convencionais, como demografia ou mesmo perfis psicográficos. É preciso adicionar um novo olhar, usando uma nova lente. E foi com base nestes novos critérios, a DM9 adotou cinco perfis de consumidores digitais, que ganharam o apelido de perfis digigráficos. São eles:

| Imersos: Tiveram parte de sua identidade definida a partir da tecnologia. Com ela, conseguiram “se encontrar”, definir melhor seus interesses e estabelecer melhores vínculos com o mundo. Suas personalidades e identidades foram definidas pela era digital, que os permitiu dar vida a mais personas.

| Ferramentados: recorrem à tecnologia para agilizar as tarefas, mas não a idolatram. A tecnologia os ajuda nas tarefas cotidianas, facilitam suas vidas. Mas não dependem delas nem são definidos por elas .Esse grupo é um exemplo de como as pessoas redefiniram a maneira como se relacionam com família, escolas, empresas e governo.

| Fascinados: querem parecer modernos e tecnológicos. Para eles, computadores, gadgets e hábitos da Era Digital são ícones da modernidade – e consumir essas novidades os ajuda a atestar que são antenados. Eles são um excelente exemplo de como o relacionamento com os outros foi bastante modificado.

| Emparelhados: a tecnologia é fundamental para pôr em prática os projetos da vida. Eles enxergam a tecnologia como a grande companheira para fazer o dia a dia acontecer. Sem ela, a vida fica extremamente complicada. Para este grupo, as máquinas são como uma extensão do seu corpo, potencializando suas capacidades humanas.

| Evoluidos: o universo das máquinas e da tecnologia é seu habitat. Esses são as crianças e os adolescentes que já nasceram adaptados e estão crescendo no mundo digital. Não conheceram o mundo pré-digital.

Wimbledon como você nunca viu

(E tome mais vídeo) - É fato: sempre que tuíto alguma coisa sobre tênis perco lá meus 4 ou 5 seguidores. E como eu sempre solto meus comentários cretinos sobre o esporte, a tendência é que zere meus seguidores antes do Bellucci ganhar um Master 1000. Mesmo assim, não ligo muito, não estou nesse mundo para pregar para as massas, e sim fazer o que gosto. Como gosto de falar de tênis, acho que não terei uma vida muito longa no Twitter. É isso.

A única tristeza é quando percebo que as pessoas não entendem direito a metáfora do bagulho. Queria que entendessem a beleza simétrica da coisa toda. Tênis não é só aquela coisa estúpida de ficar jogando a bolinha pra lá e pra cá. Tênis é a síntese da vida, tá tudo ali, tudo, rigorosamente tudo. Mas não quero escrever sobre isso agora, estou com preguiça. Joguei dois sets ontem e meu antebraço está me matando (alongamento é para os fracos!). Por isso, quero apenas compartilhar com vocês esta belíssima sequência de imagens em Tilt-Shift que a ESPN produziu em Wimbledon. Putz, falei de Wimbledon.

Ok, só mais um parágrafo, vai. Nem preciso da Wikipédia para lembrar de coisas interessantes sobre Wimbledon. Por exemplo, criado em 1877 é o mais antigo e prestigiado torneio de tênis do mundo. É um evento com particularidades que perpetuaram-se ao longo dos anos - é tradição que não acaba mais. A que mais gosto, sem dúvidas, o fato de todos os tenistas terem de jogar obrigatoriamente de branco, e pode espernear a vontade, se não for de branco, não entra. Também não tem marca de patrocinadores para todos os lados que se olhe. Com exceção da final, não tem jogos aos domingos, é exclusivo dos sócios - sorry, Mr. Roger Federer! Se bem que ele também é sócio, e dos honorários. Mas calma, tem mais. A grama sagrada do complexo londrino ostenta um recorde curioso, foi lá que aconteceu o jogo mais longo da história do tênis. Em 2010 John Isner e Nicolas Mahut precisaram de 11 horas e 5 minutos para saber quem avançaria à próxima fase do torneio. Ainda sem a ajuda da Barsa lembro que tradicionalmente, todos os campeões de simples tornam-se automaticamente sócios honorários do All England Lawn Tennis and Croquet Club.

Tudo isso devidamente dito, relaxe na poltrona e sinta um pouco do que isso tudo representa para um apaixonado por tênis.

Em tempo: assista à Wimbledon, o Jogo do Amor. É uma comédia romântica idiota, mas, é em Wimbledon.

'Roberto Justus +' falando de redes sociais

Empolguei com a publicação desses vídeos, é a fase, logo passa. Enquanto isso, não nego que estou gostando muito do formato do novo (?) programa de Roberto Justus. Apesar de ser feito para leigos, estou gostando dos temas abordados. Dia desses falaram de transgressão e liberdade de expressão e o bixo pegou entre o homem-robô e o humorista Danilo Gentili - vale a pena conferir. Só estou achando a direção meio fraquinha - estou até pensando em mandar meu currículo pra lá, apesar de não entender picas do assunto. 

Enfim, no episódio que destaco hoje, blogueiros e entendidos do assuntos falam o que pensam da vida, do universo e tudo o que envolve essa revolução que atende pelo nome de redes sociais. Algumas bobagens são explanadas, óbvio, estamos falando de um programa da Record, mas no geral vale a pena dar uma olhada. Dedique 49 minutos da sua vida assistindo ao vídeo abaixo, se achar que deve:

quinta-feira, 26 de julho de 2012

A ótima palestra de Tiago Leifert à estudantes de jornalismo

Costumo descer o cacete na Globo aqui no blog, não é para menos, eles tratam o brasileiro - até com certa razão - como verdadeiros acéfalos. Devem ter identificado isso em alguma pesquisa quantitativa da vida, faz parte. Mas é óbvio que não são o que são à toa, têm lá suas qualidades e por isso vive sendo copiada pelas concorrentes. Jornal da Record, A Fazenda e Domingo Espetacular estão aí para não me deixar mentir.

Sendo assim, estava eu zapeando pelo Youtube quando me deparo com uma palestra do Tiago Leifert aos estudantes de jornalismo da Uninove. Uma baita palestra, devo dizer. O jovem editor-chefe do Globo Esporte fala sobre segmentação, tecnologia, formatação, concorrência, nepotismo, influências micro e macro ambientais, tudo dentro da arena esportiva. Vale muito a pena conferir todos os vídeos. Vai por mim.

Parte 1:



Parte 2:


Parte 3:


Parte 4:


Parte 5:


Parte 6:


Parte 7:

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Mais polêmico do que criativo | 48

(Mundo chato, esse nosso) - Não ia falar disso, mas não me aguentei e cá estou. Todos aqui devem ter visto a campanha viral da Nokia “Perdi meu amor na balada”. O roteiro é simples e, até ceto ponto, meio brega. Daniel Alcantara, o protagonista, perde um pedaço de papel onde estava anotado o telefone de Fernanda - a garota que ele conheceu numa discoteca (é assim que me refiro à balada, algum problema? Também gosto de "danceteria"). Depois disso ele tentou desesperadamente reencontrá-la, era um apaixonado em busca do grande amor da sua vida (eu disse, é meio cafona). Gravou vídeo pedindo ajuda de amigos e desconhecidos, publicou no Facebook, fez retrato-falado e o diabo a quatro. Ah, não vou ficar explicando, assiste aí.



A ideia é que as pessoas acreditassem que tratava-se de algo real, tão valorizado nos dias de hoje. As pessoas gostam de coisas reais, por isso essas merdas como A Fazenda e Big Brother fazem tanto sucesso. Quando descobrem que a Bella e o Edward estão namorando na vida real então, é uma maravilha. Como disse, as pessoas gostam do tal "baseado em fatos reais", e esse vídeo do Daniel em busca de Fernanda parecia ser bastante real.

Mas, como diria o nosso poeta contemporâneo Cléber Machado: hoje não, hoje não... hoje sim! Hoje sim? Na verdade, era um viral da Nokia para promover o aparelho 808 PureView e sua espetacular câmera de 41 MP. E o que era para ser uma história com final feliz com mais de 1 milhão de visualizações no VocêTubo, acabou saindo pela culatra. Quando as pessoas descobriram que aquele caso de amor que estava acontecendo em pleno século 21 era apenas mais uma campanha para vender celulares, resolveram xingar muito no Twitter. Onde já se viu, essa Nokia pensa que é quem para mentir assim para os fregueses? Passaram então a desgostar da brincadeira e ver a marca finlandesa como uma grande e asquerosa vilã. Como sempre digo, vivemos num mundo chato pra cacete.



Agora tá lá a Nokia tendo que se explicar ao Procon-SP e Conar. Como não havia nenhuma identificação que trata-se de uma propaganda no começo da campanha, os órgãos entenderam que pode ter havido uma violação do direito do consumidor. Segundo o CCSP, o caso será analisado por um relator, que pode pedir suspensão da campanha, se julgar necessário. O código de defesa do consumidor também prevê que a mensagem de caráter publicitário deve ser realizada de maneira que o consumidor possa identificá-la como tal. E caso o Procon entenda que houve uma transgressão, a Nokia terá que pagar uma multa bem salgada, algo entre 400 mil e 6 milhões de dinheiros brasileiros.

Agora perdoem o meu francês, mas puta que o pariu! Que porra é essa? O que essa gente toda pensa? Se sentir enganado por causa de uma brincadeira inofensiva como essa? Cadê o senso de humor do brasileiro? Tudo não passa de uma forma diferenciada de interagir com o público, onde está mesmo o problema? Quem foi enganado no final? 

Sintam-se enganados pelos políticos que te pediram voto e agora estão rindo da sua cara de idiota. Sintam-se enganados pelos impostos escandinavos que pagam e serviços africanos que recebem. Sintam-se enganados pelo aumento irreal do salário mínimo. Pela polícia corrupta, pela imprensa tendenciosa. Sintam-se enganados por qualquer merda mais relevante do que um maldito vídeo no Youtube. Deixem de ser bestas pelo amor de Deus!

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Dia Mundial do Futebol

Ontem, 19 de julho, foi o Dia Mundial do Futebol. O Banco Itaú e sua agência com nome de continente aproveitaram o momento para reforçar a campanha #vamosjogarbola. Assiste aí e eu tasco meus comentários azedos lá embaixo.


O vídeo é curioso, bastante visual com essas imagens desfocadas, tem um texto emotivo e intercala as torcidas sem dar identidade a nenhuma delas - óbvio, querem ficar bem com todo mundo. Um erro, como quase tudo o que se vê no vídeo. Na minha opinião que não vale muita coisa, acho que esse tipo de apelo atinge apenas aqueles que não entendem direito qual é o papel de uma empresa quando se mete a falar de futebol.

Ô Itaú, já que você se empreitou a falar da nossa paixão pelo futebol, faltou dizer aí que a coisa mais vital do esporte é a rivalidade, e é só por isso que ele tem graça. O botafoguense não quer que o Flamengo morra, ele quer que o Flamengo perca. Mas você, Itaú, não entende isso direito porque não torce por ninguém, você é só um maldito banco, como todos os outros que existem por aí. Bancos não torcem, eles apenas querem o dinheiro dos clientes para fazer girar uma complexa engrenagem construída por complexas engenharias financeiras. Quanto mais clientes, mais rápido gira essa engrenagem e mais lucros eles têm. Nada contra, são apenas negócios. E já que os fregueses gostam desse negócio de torcer, por que não falar de futebol em nossos comerciais? Hein?

Todo torcedor sabe que sucesso dos times é cíclico, feito, inevitavelmente, de fases boas e ruins. Não existe o melhor, existe o que está melhor naqueles 3 ou 4 anos. Tem uma entrevista do João Moreira Salles que explica bem o que um torcedor de verdade entende por futebol (procurem, deve ter em algum lugar nos cafundós Youtube). A vitória é o que importa, ainda que não importe mais do que a nossa fidelidade. Por isso o Sportv foi muito feliz quando veiculou isso aqui e a Nike foi muito infeliz quando veiculou esse outro aqui - uma marca não tem o direito de se colocar no lugar do torcedor. "Torcemos juntos" - é o que também perpetua o slogan da Fox Sports. Não, Fox, não torcemos juntos por um único motivo: quando vocês torcem para todos, não torcem para ninguém.

Anunciantes no futebol não meros coadjuvantes, visam seus lucros e, por isso, não estão no mesmo patamar dos apaixonados torcedores. Devem acompanhar tudo do lado de fora. Torcedores não recebem dinheiro do futebol, pelo contrário, eles colocam dinheiro nele. Por isso, Itaú, Nike e Fox dos infernos, não venha se comparar a mim, suas concepções são bem diferentes das nossas. Deixem de ser idiotas de uma vez por todas, vocês não entendem o verdadeiro poder do futebol.

Amo meu time, e só eu tenho o direito de criticá-lo, igual a qualquer outra coisa que você adora. Mas o outro foi campeão? Dane-se, o meu ainda é melhor, mesmo não sendo naqueles 3 ou 4 anos. A paixão explica-se quando torcemos incondicionalmente, e não importa o que aconteça, queremos ver sempre o nosso adversário se foder não obter êxito, nunca. E quando não há violência, vale tudo, digo, quase tudo. Nesse universo todo não existe imparcialidade, muito menos razão. Como poderíamos confiar nas estatísticas quando ainda há esperança, ainda que ela morra no apito final de um juiz filho da puta?

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Guia dos Mochileiros das Galáxias

(Muito imperdível) - Eu não canso de me embasbacar com esses preços malucos do Submarino. Vejam só essa coleção inteira do Guia dos Mochileiros das Galáxias por inexplicáveis R$ 19,90. Cada livro sai por menos de 4 reais. Se preferir, você ainda pode parcelar tudo em até 3x de R$ 6,63 e sem os malditos juros.



Coleção Guia Mochileiro das Galáxias
5 Volumes

de R$ 99,50
R$ 19,90
Ou 3x de 6,63 (sem juros)

:: Clique aqui para comprar (enquanto é tempo).

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Diário de viagem | As aventuras de um publicitário disfarçado de turista


Continuação do post anterior. 

(VALLE NEVADO, CHILE) Não costumo me impressionar, com nada, nada mesmo. Talvez, se dois Jumbos 747 colidissem em pleno voo e eu estivesse por perto, vendo tudo de camarote, talvez sim, ficasse impressionado. Primeiro, porque tenho certa adoração por Jumbos, tanto que sempre discuto com meu pai a confiabilidade deles perante a tecnologia coxinha da Airbus. Segundo, porque aviões não saem por aí de espatifando um no outro, seria algo que não se vê todo dia. Mas, naquela sexta-feira chuvosa eu estava prestes a ficar bastante impressionado com o que estava por vir.

Era o meu 9º dia em solo chileno e finalmente havia chegado a hora de conquistar a terrível Cordilheira dos Andes. Acordei cedo, bem cedo, não era para menos, estava ansioso. A promessa de afundar os pés na neve me fazia não pensar em mais nada. Preparei meu café da manhã com destreza, café esse que incluía um pão bastante peculiar, queijo, mostarda apimentada, salame, manteiga e muito "jamón acaramelado".

Não posso continuar sem falar um pouco melhor do tal jamón acamelado. Para quem não sabe, ou não estudou na Dynamic's School, "jamón", em espanhol, é presunto, e "acaramelado" é... acaramelado. Só Deus sabe a maravilha que é esse pedaço de carne de pavão, meio preta, meio estragada, mas incrivelmente saborosa. Quando vi no balcão de um mini-mercado logo no primeiro dia, não tive dúvidas, pedi duas fatias só pra saber qual é. Comi com certo receio e fiquei encantado (ui!). No dia seguinte, voltei ao armazém e comprei todo o estoque do dia. Nada mais importava, queria comer todo o jamón acaramelado que conseguisse. Uma maravilha gastronômica que deveria ser compartilhada com o resto do planeta, sem sombra de dúvidas. Por isso, se eu pudesse dar apenas um conselho sobre o futuro, seria: quando for ao Chile, coma todo o jamón acaramelado que encontrar pela frente.

Retomando. Farto de tanto presunto preto, deixei o hotel e rumei para o leste, pegaria um micro-ônibus não muito longe dali, dava para ir a pé e apreciar a beleza do Parque Forestal. A Turistik, que é a principal empresa turística da cidade, iria me levar junto com outros aventureiros ao que chamam de a maior estação de esqui da América Latina. E como falam isso, que estávamos indo para a maior estação de esqui de toda a parte latina da América. Por que as pessoas têm essa mania de dizer que as coisas só são boas quando são as maiores da América Latina, ou das Américas, ou do Hemisfério Sul, ou do lado ocidental do mundo, e claro, do próprio mundo. Será que não basta ser legal sem ser maior que todas as demais?




Valle Nevado - a maior estação de esqui da América Latina - ficava a pouco mais de 40 quilômetros da capital daquele país. E o que é muito perto para os padrões normais, torna-se longe pra diabo se contarmos a distância em curvas. São 161 no total, sendo que 40 delas formam ângulos de 180º. Isso faz com que a distância seja percorrida em não menos de 1 hora e 45 minutos. Não é para menos, são quase 3 mil metros de altura que separam o ponto A, Santiago, do ponto B, Valle Nevado - a maior estação de esqui da América Latina. Almofadinha em viagens terrestres que sou, no terceiro cotovelo eu já estava verde de enjoo. Comecei a fuçar nas configurações da minha câmera fotográfica pra ver se melhorava, mas o enjoo só aumentou. Eu ia vomitar jamón acaramelado, era um fato.

Por sorte também sou um velho coiote na arte de não emporcalhar o ambiente onde estou, principalmente quando compartilho esse ambiente com outras pessoas. Pensei na Paloma de Oliveira posando para a Playboy, depois num vídeo engraçado que assistira dias antes no Youtube e assim fui driblando a náusea. Mas ainda faltavam 97 curvas, as plaquinhas na estrada iam me lembrando. Resolvi puxar conversa com os outros brasileiros, e quase todos estavam atentos à estrada e sua forma incrivelmente sinuosa. Entendi que deveria calar a minha boca e buscar outra forma de entretenimento.



A coisa começou a ficar interessante em determinado momento da subida, quando surgiram os primeiros sinais de gelo sobre o asfalto. Hugo, o motorista, parou o micro-ônibus e deu um berro à sua tripulação: CADENAS! A teacher Maria José lecionando nas salinhas acanhadas da Dynamic's School me veio à cabeça instantaneamente. Cadeiras? Cadeias? Cadernos? Correntes! Claro, era hora de instalar as correntes nos pneus daquele jerico motorizado.

Meia hora depois estávamos pronto para continuar a peregrinação rumo à maior estação de esqui da América Latina. O frio ia apertando a cada curva vencida, até que tudo ficasse branco, absolutamente branco, incrivelmente branco. Para quem nasceu com o nariz atolado na poeira, aquilo era o máximo. Costumo dizer que frio nunca é demais, mas só falo isso quando discuto com garotas friorentas sobre a temperatura do ar condicionado em Cuiabá. Ali, nos Andes, eu passei a me questionar sobre essa afirmação. Estava muito frio, ventava forte, e então começou a nevar. Hugo olhou para o guia turístico e ambos fizeram semblantes estranhos, franzindo as testas, e então o motorista soltou um "logo nesse ponto da estrada, que azar!". Não tenho certeza, mas acho que me borrei um pouco nessa hora.


A nevasca aumentava conforme íamos subindo vagarosamente, percebi que guia e motorista cochichavam, estavam discordando em alguma coisa. Certamente um queria voltar e o outro queria continuar. O clima dentro do ônibus também ia mudando, cada vez o oba-oba inerente às caravanas turísticas ia dando lugar à uma tensão silenciosa. A neve batia contra as janelas e fazia um barulho desagradável, de repente não se podia ver mais nada do lado de fora. Hugo foi diminuindo ainda mais a velocidade, que já era lenta. E o vento aumentava. De repente, um estrondo seguido de um solavanco. Todos de olhos arregalados perguntaram-se: o que diabos está acontecendo aqui? Ninguém sabia direito, todos procuravam uma resposta nas expressões faciais de Hugo, que continuava guiando como se nada de anormal estivesse acontecendo. Talvez fosse mesmo um sinal que aqueles trancos fossem mesmo normais, ainda que na prática fosse de gelar a espinha.

Avançamos mais três curvas e a situação ficou bem perto de caótica, o ônibus parou, não subia apesar do giro do motor sinalizar o contrário. Como uma mula empacada o carro se recusava a avançar, mas Hugo era insistente. Com o semblante ainda tranquilo ele duelava com o câmbio de fabricação germânica. Pelo menos imagino que era, tinha uma bandeirinha da Alemanha em relevo naquele calombo usado para a troca de marchas. Começamos a patinar e segundos depois a a traseira passou a ir de um lado para o outro, dançando no gelo. Lembrei de um quadro do Domingão do Faustão, e assim como o programa dominical, aquilo não tinha graça nenhuma. Todos estavam paralisados, tentando evitar o medo daquela merda despencar morro abaixo. Um cheiro de embreagem queimando tomou conta do lugar, mas ninguém falava nada, não sei se falar ajudaria em alguma coisa. Os únicos sons eram o assovio do vento gelado da Cordilheira e o motor sendo castigado pelos comandos agressivos de Hugo. E então o motor apagou. Não, aquilo não era nada bom.


Hugo levantou-se, olhou para todos nós, abriu a porta do micro-ônibus, desceu no meio da tempestade de neve e nunca mais foi visto. Pelo menos, não por mim. Estávamos no meio do gelo e ficamos sem chofer. O guia, Guilherme (não tinha me tocado na aliteração) pediu a palavra e mandou um portunhol sofrível: Calma, pessoal. Eu tenho habilitação para dirigir esta coisa. E então mostrou de relance a sua carteira com um documento com foto. Aquilo podia ser qualquer coisa, pensei, desde o RG chileno até a carteirinha de cliente da Blockbuster. Preferimos acreditar que tratava-se de uma habilitação especial para dirigir veículos de grande porte em uma das estradas mais perigosas do mundo. Mas, o que houve com o motorista? Perguntaram todos em uníssono. Então Guilherme finalmente quebrou o silêncio e deixou todos a par da situação.

- Atenção, pessoal. Perdemos uma das correntes traseiras, não vamos conseguir subir, nem descer, nem nada. Estamos ilhados e sem sinal de celular. A tempestade está aumentando. A boa notícia é que não tem como piorar. - Ninguém riu, então ele continuou - Hugo foi tentar achar a corrente. Fiquem calmos. Tudo vai ficar bem. Acreditem.

Em situações assim eu sempre fico calmo. Nada mais me vem à mente além de pensar que aquilo pode render uma boa história para contar - gosto de contar histórias. Lembro quando eu e seis amigos fomos assaltados enquanto jogávamos truco. Foi na época da faculdade, os meliantes entraram na nossa república, nos amordaçaram e trancaram todos em um porão fedorento. Eu só pensava na história rica em detalhes que aquilo tudo iria gerar. É uma boa técnica para não entrar em pânico. A questão é que nunca me preocupo demais, a menos que eu leve um tiro, perca a consciência ou, pior, perca a dignidade (vocês entenderam o que eu quis dizer). Faz parte daquela coisa de nunca me impressionar com nada.

Mas eu era o único ali que deveria pensar assim, porque todos estavam exageradamente aflitos com a situação. A nossa esperança de sair dali era confiar na habilidade de um motorista em encontrar uma corrente perdida no meio de uma forte nevasca.

Mais de 40 minutos se passaram e nada do maldito motorista. Haviam crianças a bordo, que queriam brincar na neve. Que estúpidas! Pensei. Não estão vendo que está um inferno lá fora? Mas elas foram, e outros adultos também - todos suicidas. Fiquei para não abandonar o barco, o que se mostrou uma decisão bem acertada minutos depois.

Uma van desgovernada, com as portas abertas e sem ninguém dentro descia rodando na pista contrária. Era uma catástrofe iminente, ou ela se chocaria no ônibus onde eu estava e cairíamos na ribanceira ou ela atropelaria todos os que estavam do lado de fora e cairia igualmente na ribanceira. Existem muitos estudos científicos que tentam explicar o que acontece com o corpo humano quando presenciam uma tragédia in loco. A descarga de adrenalina, a dilatação da pupila, o aumento da pressão arterial, há uma reação para cada tipo de pessoa. Em mim, dá vontade de fazer o número 2. É instantâneo! Mas eu não tinha tempo para isso, a minha prioridade era sair da alça de mira de uma van desgovernada cordilheira abaixo.



Sai para o lado e ela passou bem perto de mim. Corri atrás, não sei bem porque fiz aquilo, era de uma idiotice sem tamanho, eu também podia não conseguir parar. Mas eu queria ver a van arrebentando o guard rail, voar para a morte e terminar numa grande bola de fogo. Igual aos filmes do Jackie Chan. Mas, por sorte, o que não falta nesse mundo é gente maluca. E um deles conseguiu pular dentro da van e jogá-la contra uma parede de neve. De maluco virou herói, ainda que tenha se arriscado por um monte de lata, que, certamente, tinha uma boa apólice de seguro prevendo essas coisas.

A possibilidade de mais vans virem em nossa direção amedrontou alguns e gerou ira em outros. Já tinha virado palhaçada, foi o que questionavam os mais efusivos. E quando quase todos já tinham perdido as esperanças de chegar a Valle Nevado naquele dia, chega a corrente salvadora. Um outro ônibus da Turistik nos socorreu emprestando uma de suas correntes reservas. Era a salvação, mas ainda precisávamos de um motorista. Sem opções, vai o guia e sua carteirinha da Blockbuster mesmo.

Poucas curvas depois chegamos ao destino. Uma viagem que levou quase 4 horas e cheia de emoção foi recompensada por um lugar privilegiado. Valle Nevado merece toda a fama que tem. Estrutura impecável, pistas de esqui para todos os níveis de dificuldade e uma paisagem cinematográfica. Woody Allen deveria filmar ali qualquer dia desses, se é que já não filmou. Passei o resto do dia conhecendo cada detalhe do lugar, conversando com gente de todos os cantos do Brasil – sim, tem muito brasileiro por lá, somos uma praga.


O Chile é mesmo um país fantástico. O chilenos, em alguns pontos, se assemelham muito aos brasileiros. Gostam de futebol, são hospitaleiros ao extremo, se preocupam em falar a língua dos forasteiros, orgulham-se do seus país quando alguém de fora o elogia, mas não perde o hábito de criticá-lo quando não tem ninguém por perto. Por incontáveis motivos, tudo o que posso dizer para fechar esse meu diário de viagem sobre o Chile é: um país, deveras, exquisito.

| Fim.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Revista GC: O homem com estilo vive melhor

Sinceramente, não sei o que dizer destes vídeos. Todos que têm algum respeito pela espécie deveriam ver e decorar. Dia desses estava numa fila e prestei atenção na conversa de dois caras à minha frente, coxinhas que tomavam suco de uva com canudinho e falavam sobre uma loja da Lacoste em liquidação. Santo Deus! Homens com canudinho comentando uma liquidação! E pensar que já saíamos para caçar com os pés descalços em determinado momento de nossa evolução. A criação é da sempre excelente Lew'Lara\TBWA.


| Vinho


| Panda


| Gestos


| Sabetudo


| Pronúncia


| Viagem

quinta-feira, 12 de julho de 2012

O recado da Coca-Cola ao mundo

Nota 1 milhão, o novo comercial de uma tal de Coca-Cola - parece que é uma marca de refrigerantes fundada na América por farmacêuticos distraídos. Nada de mega produções, atores famosos ou computações gráficas importadas do Japão. Apenas uma compilação de imagens capturadas por câmeras de segurança. Simples assim, como diria o slogan de uma popular empresa de telefonia.

Nas imagens, nada de especial, apenas ações nobres, sempre tão raras. São abraços, beijos, gestos de cidadania, gentilezas, resumindo: educação. Esse mundo anda meio descalibrado, as pessoas se odeiam, se matam por qualquer besteira sem valor e têm o péssimo hábito de jogar todo tipo de porcaria no chão. Que bom que algumas marcas sabem disso e tentam mandar um conselho de vez em quando.

Tudo bem que trata-se de um conceito beeeeeeem antigo, tão antigo quanto andar para trás ou amarrar cães com linguiça (acho que é assim que dizem por aí, quando querem destacar algo que é muito antigo. Meu sogro costuma dizer que é mais velho do que o rascunho da Bíblia). De qualquer forma, é um conceito que sempre pega muito bem, ainda mais quando a trilha ajuda.

Queremos vender água com açúcar, e se possível, queremos fazer isso em um mundo mais humano, menos estúpido, mais cordial. Acho que é mais ou menos isso que estão tentando dizer.

As legendas que se movem

Mais uma daquelas ações que irritam alguns e arrancam aplausos de outros. A Ogilvy criou para a escola de idiomas English Language Institute uma guerrilha nas salas de cinema do Peru, país onde 87% da população não fala inglês. Assim que o filme começa as legendas passam a se movimentar pela tela e acabam indo parar na parede da sala. Ninguém entende direito o que está acontecendo, e então surge a mensagem: "Por que você não está assistindo ao filme? Aprenda inglês". Pra mim, apesar de ser uma ação meio abusada, não deixa de ser genial.

Time-lapse na Eurocopa

(Só vi agora) - Muito legal o time-lapse que fizeram no jogo entre Itália e Polônia nessa última Eurocopa. Todo o ritual que envolve um grande jogo, o estádio enchendo, esvaziando, o jogo, a torcida, tudo comprimido em apenas dois minutos. O resultado é um efeito fantástico para quem assiste. Pelo que pesquisei, as imagens fazem parte de um filme corporativo criado para o BPS Bank.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

A evolução da Fórmula 1 em um minuto

Para quem gosta, bem legal este videozinho que mostra a evolução dos carros de Fórmula 1 ao longo dos anos. São 62 temporadas em 33 segundos. Reparem também o volante no canto superior direito.



Aqui tem um infográfico com mais detalhes.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Diário de viagem | As aventuras de um publicitário disfarçado de turista


| Continuação do post anterior.

(SANTIAGO, CHILE) Não sei se aqui é o lugar mais indicado para expor isso, mas eu sinto que devo exteriorizar uma coisa que se evidenciou nessa minha viagem. Se todos que estão lendo isso estivessem aqui, ao meu lado, pediria que fizessem um semi-círculo, iria até o centro e faria uso da palavra para dizer que parei de beber há três anos e que a minha vida melhorou muito depois disso tenho um pouco de vergonha de ser brasileiro. Notou? Eu disse que é só um pouco, e não, muita vergonha. Vou explicar o porquê.

O brasileiro, salvo as raríssimas exceções, é um povo que consegue ser simpático e bem humorado em um minuto, e no seguinte ser de uma deselegância assombrosa. Além disso são sistematicamente mal educados e estúpidos com algum nativo do país que estão visitando. Não pense que eu gosto de dizer isso, mas é fácil apontar um grupo de brasileiros no meio a uma multidão de turistas. São barulhentos, falam besteira com a mesma naturalidade com que respiram, sentem-se mais espertos que todos a sua volta e, em alguns casos menos comuns, são desonestos - mesmo nas mais insignificantes situações. Um povo detestável, diria sem medo de exagerar na crítica.

Percebi tudo isso enquanto dividia com os meus compatriotas os principais pontos de interesse dos que visitam Santiago. Em todos os museus, parques, vinícolas e restaurantes que fui, topei com brasileiros e suas idiossincrasias. E em todas as vezes flagrei atitudes que me fizeram compor esse raciocínio (tá certo dizer que um raciocínio foi composto?). Quando visitei o Coliseu, em Roma, peguei uma fila quilométrica, fiquei lá por quase duas horas, com representantes de todas as partes desse mundão bagunçado de Deus. Foi nesse dia que passei a observar o comportamento das pessoas com mais critério. Reparei que os italianos também falam alto, e nunca se sabe se estão brigando ou discutindo futebol – normalmente estão discutindo futebol. “Cazzo” e “Andare in bestia” são as palavras mais ouvidas num diálogo comum. Os dedos juntos apontando para cima demonstram alguma contrariedade, mas essa já é a sua marca registrada. Os russos cheiram a vodka, não há nada mais que se possa dizer sobre eles. Os argentinos são cabeludos e falam rápido, as argentinas têm rosto quadrado e se acham mais bonitas do que as inglesas. Os americanos, norte-americanos ou estadunidenses, são, na maioria das vezes, adolescentes ou sexagenários. Imagino que são as exceções de um povo que não faz a menor ideia que existe um mundo além das fronteiras da América. Nunca entendi bem porque eles têm essa mania de chamar seu país pelo nome do continente. Os americanos, norte-americanos ou estadunidenses são uma sub-categoria de brasileiros, a diferença é que eles têm um sério problema com seus complexos de superioridade. Os franceses são gays, digo, felizes. Magros e bem vestidos, os nascidos na França gostam de dar informação turística em qualquer país que não seja o deles. Os austríacos, bem, não faço a menor ideia de como sejam os austríacos, nunca vi um de perto. Mas imagino que sejam parecidos com os eslovacos e húngaros - povos que eu igualmente desconheço. Voltando à vergonha que sinto pelos naturais do Brasil, tenho a sorte de ter nascido com essa cara de canadense bocó misturado com turco ranzinza, e posso me fazer passar por outra nacionalidade quando alguma situação embaraçosa se apresente.

Isso devidamente dito em dois parágrafos pequenos e um bem grande, falemos um pouco da peculiaridade que é o mapa do Chile. Você cruza o país de leste a oeste de carro em menos de duas horas, e foi exatamente o que fiz quando decidi que conheceria o meu terceiro oceano. Tenho muitos planos, um deles é que conhecerei, até o evento do meu funeral, todos os países, mares, oceanos, vulcões e desertos do globo terrestre. "Irei longe, se as circunstâncias permitirem". Viu só como eu consigo citar Napoleão Bonaparte em algumas situações?

Acordei muito cedo naquela quinta-feira fria de inverno, estava ansioso para conhecer o Pacífico. Gosto de riscar nomes em minhas listas, e Valparaíso, Viña del Mar e, claro, o oceano que banha aquela tripa de país, eram as bolas da vez (?). Uma van da empresa que contratei me pegaria no hotel às 8h15. Eu, com a pontualidade britânica que tanto me orgulho, estava em frente ao hotel quando os ponteiros do meu celular diziam que haviam se passado 15 minutos das 8 horas. Mas a Besta, o modelo do automóvel, não o motorista, passou as 9h10. Fiquei puto, como sempre fico com qualquer tipo de atraso, sou um inglês de araque, xinguei a besta, dessa vez sim, o motorista. Mas acho que ele não entendeu, já que o fiz em português mesmo, com meu inconfundível sotaque de mato-grossense interiorano. Entrei na van resmungando e saí em busca de um assento livre. Mas, para minha nova surpresa, não tinha assento livre, e todos me olhavam com semblantes sérios. Fiquei mais puto ainda, eu não era o culpado, pelo menos achava que não.

 Vamos às legendas: acima, quando não sou el sorpreendente hombre-araña. Um pouco mais abaixo, eu com cara de paisagem riscando o Pacífico da minha lista de oceanos a conhecer. Bem lá em cima, uma placa idiota, eu tomando um mocha no Starbucks e a frase del día - do popular pub santiaguino "The Clinic".

Como me considero um verdadeiro mestre em disfarçar as minhas emoções, voltei à boleia para falar com o motorista. Disse-lhe, em tom cordial, que a empresa na qual ele trabalha é uma bosta, que onde já se viu deixar o cliente esperando naquele frio dos diabos por quase uma hora. Que exigiria meu dinheiro de volta, que falaria com a embaixada e mandaria deportar o Valdívia do Brasil, que enviaria um telegrama hostil ao Sebastián Piñera, que, que, que... E então eu olhei para o dedo indicador do motorista que apontava para a frente do micro-ônibus. Eu estava na van errada.

Uma dica: antes de chamar alguém de idiota, certifique-se se o idiota não é você. E se você for brasileiro, certifique-se duas vezes.

| Continua no próximo post.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Getty Images: pare de usar esta imagem

Uma pequena pausa nas crônicas de viagem para abrir espaço para este excelente anúncio da Getty Images. A AlmapBBDO está se especializando nesse tipo de comunicação, se é que eles já não eram especialistas. Clique na imagem para ler o texto, se achar que deve.


quinta-feira, 5 de julho de 2012

Diário de viagem | As aventuras de um publicitário disfarçado de turista

| Continuação do post anterior.

(SANTIAGO, CHILE) O Cerro Santa Lucía não estava a mais do que 500 metros da minha rua, a Merced. Sem dúvida, tratava-se de um excelente ponto para iniciar a minha exploração pelo Vale Central. O morro é o menor de dois que a cidade ostenta em seus cartões postais, eu acho (digo que acho porque desafiei-me a escrever estes textos sem recorrer ao Google para checar os dados. Vai tudo de cabeça, quando ficar em dúvida, tasco um "eu acho" no fim da frase. Esse será o código).

Voltando ao Santa Lucía, quem o visita não faz muito mais do que subir escadas que serpenteiam um monte adornado pela flora da região. São muitas escadas, quase todas íngremes a ponto de obrigar o bípedes que a escalam a apoiar as mãos na coxas para melhorar a tração enquanto vencem os 45 milhões de degraus, eu acho. O resultado disso é que você sobe, sobe, sobe e quando chega ao topo, sobe mais um pouco. E quando o tédio e a fadiga muscular começam a apresentar os primeiros sinais, todas as escadas convergem para um mesmo ponto: um acanhado mirante em 360º da cidade. Vale o sacrifício, apesar de compartilhar os pouco mais de 20m² com outros 200 turistas de diversas nacionalidades. Se não fosse um enorme exagero, diria que trata-se de uma pequena Torre de Babel.

Quem escreveu essa placa, o Cebolinha?

Um vez no cume, só resta admirar a vista panorâmica de Santiago, a imponência dos Andes e sentir o vento gelado que rasga todo aquele enorme vale. Por 100 míseros pesos, os mais curiosos credenciam-se a usar uma luneta de aproximação. Curioso que sou, depositei uma pequena moeda na geringonça e passei 10 minutos imaginando ser um espião do Serviço Secreto Chileno. A desgraça é lembrar que é preciso vencer todos aqueles degraus de novo, mas como disse, vale o sacrifício. E foi exatamente quando me preparava para regressar do que foi a minha maior escalada até então, levo uma cutucada no ombro. Eram jovens estudantes de jornalismo da famosa Universidade Católica do Chile.



Nunca sei o que escrever nas legendas.

Sou meio antiquado para muitas coisas, uma delas é que me cutuquem. Quando falam comigo, gosto que usem um vocativo, levantem uma placa, façam algum gesto, mas não me cutuquem – nem no Facebook. Como é? Se isso me torna uma pessoa ranzinza? Claro que torna, por isso eu tento não demonstrar que não gosto. Mas elas me cutucaram, as garotas – e ainda bem que eram garotas. Correspondi com um sorriso amarelo e repetindo um velho mantra pessoal: não ser ranzinza, não ser ranzinza... E então a mais desinibida delas disparou em minha direção: ¡Holla! ¿Podemos hacerle una entrevista?

Não entendo nada de coisa alguma, no máximo sei preparar um bom molho para cachorro quente (o segredo está no açafrão, tem o momento certo de misturá-lo aos demais ingredientes). Por isso me espanta profundamente sempre que alguém me faz qualquer tipo de pergunta. Uma entrevista, então, beira o absurdo. Mas como não fazia nada mesmo e elas demonstraram muito interesse em me ouvir, fui em frente. Vamos fazer isso, se for um desastre, relato a experiência no meu blog.

As futuras jornalistas começaram se apresentando, Verônika e alguma coisa como Serena (ou seria Helena? Milena?), estavam ali fazendo um trabalho para ser apresentado em sala. Portavam consigo uma câmera de vídeo Tekpix e um bloquinho de anotações. Devem ter me observado de longe e concluído que eu era o cara certo. Também falavam um espanhol rápido e entupido de gírias. Pelo menos a dicção de ambas era admirável, o que me fez entender bem a essência da primeira pergunta. Queriam saber o que eu pensava sobre os neologismos das diferentes línguas faladas na América do Sul.

A cara da cinegrafista é a de quem está pensando: em que dialeto esse cara tá falando?

Que diabo de pergunta era aquela? - pensei antes de responder. Podiam começar perguntando se eu gosto de futebol, se eu já conhecia o Chile, se eu lembro da fogueteira do Maracanã, se o segredo no preparo de um bom molho para cachorro quente está no açafrão, qualquer coisa, só para quebrar o gelo. Mas, não, começaram com uma pesada – inexperientes, as meninas – deveriam ler a “Arte da Entrevista” antes de irem a campo. Ainda assim, dei sorte, e até aproveitei o tema para me exibir um pouco.

Respondi que apesar de um continente colonizado principalmente por descentes de Cristiano Ronaldo e Rafael Nadal, temos ainda a curiosa presença da língua holandesa e francesa em países do norte. Falei que os neologismos fazem parte da cultura de cada povo e que são inerentes ao desenvolvimento social. Mas só lembrei disso porque visitei recentemente o Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo. Também falei que consegui perceber algumas diferenças entre o espanhol dos argentinos e chilenos – só para dar mais base ao meu discurso. E quando me faltou argumentos, fugi do assunto e falei que as minhas unhas do pé vivem encravando.

Tagarelei por 20 minutos, e elas apresentando todo o interesse do mundo pelo meu espanhol "Made in Dynamics School". No final quebraram minhas pernas mais uma vez e pediram para definir os chilenos em uma única palavra. Nunca é fácil definir nada em uma palavra sem ser superficial. Respirei fundo para ganhar tempo e pensei comigo: ok, Luciano, chegou a hora de você foder com a entrevista. E então os defini como um povo exquisito.

Elas se entreolharam, fecharam a cara e foram embora sem se despedir do entrevistado – mais um motivo para lerem aquele livro, lá deve ter algum capítulo instruindo como terminar uma entrevista. Depois fiquei pensando na palavra que usei, e lembrei que a teacher Maria José havia me garantido que era uma coisa boa, que podia usar sem receio. De qualquer forma, devo ter ofendido alguém, ou alguma coisa, ou algum lugar. Achei melhor dar o fora dali o mais rápido possível, elas poderiam suspeitar que eu era um espião do Serviço Secreto Chileno.

| Continua no próximo post.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Diário de viagem | As aventuras de um publicitário disfarçado de turista


(SANTIAGO, CHILE) Cheguei ao Aeroporto Comodoro Arturo Merino Benitez, (gosto de chamá-los assim, pelo nome, normalmente existe uma boa história por trás dos nomes de aeroportos. Por que dizer que o aeroporto de Roma está fechado para pousos e decolagens quando se pode dizer que o Leonardo Da Vinci está fechado para pousos e decolagens? Soa com mais intensidade, tem um certo sinergismo aí - além de ser bem mais pomposo. Se a minha teoria se concretizar, todos serão burros num futuro longínquo, e talvez os nomes dos aeroportos sejam os únicos fragmentos de história que nos sobre) em Santiago, e dei inicio ao que chamei de "Viagem para constatar se aquela merda de curso de espanhol valeu a pena".

O Arturo Merino Benitez, ou SCL, para os mais íntimos, era o portão de entrada para o país que eu sempre quis conhecer mais de perto, desde criança. Depois vem o México, Austrália, Rússia, Espanha e Andorra - nesta ordem exata. O Chile encabeça a lista por inúmeros motivos: serviu de modelo econômico e cultural para a América do Sul por muitos anos, tem pessoas hospitaleiras, tem neve, praia, deserto, terremoto, vulcão, lhamas, tradição na Libertadores e, claro, boas vinícolas. Gosto dos vinhos, apesar de não conseguir encontrar os cheiros e aromas amadeirados que esses malditos sommeliers vivem afirmando que estão nas entranhas a uva. Por via das dúvidas, botei lá no meu roteiro umas duas ou três vinícolas, queria apreciar um Cabernet Sauvignon, que parece Merlot mas tem gosto de tamarindo.

Mas, antes de continuar com esse registro disfarçado de crônica, sinto que devo deixar o relato menos atemporal. Como nunca sei bem como encaixar datas nos meus textos, vai de qualquer jeito mesmo. Cheguei em 21 de junho de 2012. Pronto, continuemos.

Era uma quinta feira nublada que marcava o início de mais um inverno em nosso hemisfério. A cidade já vivia o clima do que se habitualmente chamam de alta temporada, onde, leia-se, existe aproximadamente um brasileiro com sacola da Decolar.com por metro quadrado. Consequentemente, a notícia que corria pelos guetos da capital chilena era uma só: amanhã abrem as estações de esqui, fujam para as montanhas. E elas estavam lá, as montanhas, ou melhor, a Cordilheira do Andes, emoldurando a belíssima Santiago com seus picos brancos, muito brancos, quase um #FFFFFF - defini com o olhar clínico de um esquimó. A propósito, li certa vez que os esquimós são capazes de distinguir até 30 tons de branco. Enfim.

No total, seriam 13 dias para explorar todo aquele novo mundo. Assim que entrei no primeiro táxi que encontrei pela frente, busquei a face do taxista no retrovisor do Nissan preto e soltei o meu tão aguardado e sonhado: ¡Hola! ¿Qué Tal? Falei com tanta propriedade que o taxista retrucou com outro ¡Muy bién! ¿Qué tal usted? Na hora lembrei da minha querida maestra Maria José, que me ensinou tudo o que eu sei da língua mãe de Augusto Pinochet. Só muito tempo depois fui descobrir que a expressão é mais usual na Espanha. Na América fala-se apenas ¡Hola!. Quem cumprimenta os outros com um ¡Hola! ¿Qué Tal? é visto como um completo pateta pelos chilenos. Depois disso os 30 minutos que me separam do centro da cidade foram preenchidos com um diálogo rico em elogios aos dois países. Falei do Brasil como se fosse um país escandinavo, onde as pessoas se amam como se não houvesse amanhã, tal qual recomenda uma popular canção da Legião Urbana.

Chegando ao Santiago Suit Apartment, na Rua Merced, bem no coração boêmio da cidade, constatei que as imagens dos aposentos ilustradas no site não correspondiam com a realidade daquele apart hotel. Por que será que isso sempre acontece comigo? Mas dessa vez o que vi foi uma instalação com padrões de qualidade bem acima do que prometia o encarte on-line. Por um pequeno espaço de tempo cheguei a pensar com meu lado esquerdo do cérebro: Ok, deve ser o quarto errado. Mas não era, o simpático hoteleiro com cara de Valdívia me garantiu que era ali mesmo, e que aqui é Chile, porra! Eu estava cada vez mais apaixonado por aquele pedaço estreito de planeta.

No dia seguinte acordei cedo e fiz o que mais gosto na vida: saí para explorar, como Magalhães. Comprei um mapa na primeira banca que avistei, paguei 4 mil pesos chilenos feliz da vida. Afinal, essa moeda é mesmo toda desregulada, deve dar uns 5 ou 6 reais, calculei mentalmente. Então lembrei de um aplicativo que baixara dias antes, saquei o celular do bolso e fiz a conversão. Santo Deus! 20 reais por um mapa! E o layout nem era dos melhores, impressão 3x0 cores e um cuchê vagabundo. Em marketing, isso tem um nome: dissonância cognitiva. Mas nada poderia estragar o meu dia, rigorosamente, nada. Então rumei para o Cerro Santa Lucía apagando da memória aquele conceito de Kotler.

| Continua no próximo post.